NOVA IORQUE - JUNHO de 2001 - ALPHA & OMEGA

 

O ALFA E O ÓMEGA

Ontem à noite quando cheguei ao Instituto Omega senti-me um pouco perdido. Enquanto esperava a bagagem, resolvi dar uma volta por ali. Encontrei um homem. Era um estranho para mim, mas pareceu-me familiar. De início, a minha timidez impediu-me de o abordar. Então compreendi que podia ser Jesus. Em seguida perguntei-lhe: "O que é que procuras aqui?" Disse-me: "Estou à procura de Alfa."

Foi-me entregue a bagagem e perdi-o de vista. Quando tentei encontrá-lo de novo tinha desaparecido. Mas, devido á sua resposta, toda a noite pensei em Alfa. O que é o Alfa?

Alfa é o princípio, a origem. O que tenho andado à procura no meu trabalho é na verdade o Alfa, a origem de onde tudo emerge, de onde tudo brota. Portanto, quer no trabalho individual, quer no trabalho com os outros, olho sempre para ver onde está o princípio e onde está a força original.

Toda a terapia, de acordo com o meu entendimento, tem de ir à origem. Para cada um de nós, a origem é, primeiro que tudo, os nossos pais. Se estamos ligados aos nossos pais, estamos ligados à origem. Uma pessoa que está separada dos seus pais, está separada da sua origem. Seja quem forem os pais, a maneira como se comportam, são a fonte da vida para nós. Assim, o principal é que nos liguemos a eles, de tal maneira que o que vem deles possa fluir para nós livremente e através de nós para os que se seguem.

Tenho uma imagem da origem. Estou a pensar num rio. Começa na sua origem. Irrompe da terra e, então, depois de brotar não tem de procurar o caminho. Encontra o caminho automaticamente porque sempre permanece baixo. O curso do rio é ir à origem, permanecer baixo. A corrente é sempre descendente, nunca ascendente. Vai sempre para baixo. Por fim encontra o oceano, onde é absorvido por uma coisa muito maior.

Muito do esforço espiritual tem como objectivo o ponto máximo. "Experiências máximas", como lhe chamam. Mas estar no ponto máximo significa que deixamos de estar ligados à origem. Permanecer em baixo, penso, é o modo verdadeiro de estar em harmonia com tudo conforme está.

Agora, tenho uma certa sensação se estou em pé em frente dos meus pais, quando fico em pé erecto em frente deles. Se me ajoelho, tenho uma sensação diferente. E se fico deitado de barriga para baixo em frente deles, em reverência, tenho outra sensação. E aquele é o verdadeiro sentimento, na origem. Quando ficamos prostados em frente dos nossos pais em reverência, então tudo o que vem deles pode chegar-nos livremente. Não existe mais resistência da nossa parte.

Não importa como os nossos pais são agora ou eram quando estávamos a crescer. Não faz qualquer diferença. A vida, e tudo o que vem com a vida, vem até nós através deles. Mas eles também estão numa longa linha. O que nos chega através deles vem de muito longe. E desce. Desce sempre. Se virmos realmente isto, se olharmos para a origem, a fonte da própria vida, e a observarmos a fluir através de todas estas gerações, podemos estar abertos ao que nos é dado. Então não haverá mais acusações, mais censuras em qualquer caso. Aceitamo-lo e então podemos virar-nos e deixar a corrente da vida passar através de nós, indo para a próxima geração, para os nossos filhos ou, se não tivermos filhos, para a comunidade, para a humanidade na sua globalidade. Então estaremos realmente em harmonia.

As constelações familiares ajudam-nos efectivamente a encontrar esta ligação. Este é o trabalho que temos em mãos, este é o objectivo. Se eu atingir isto, estou em contacto com o Alfa - também com o Ómega.

ENFRENTANDO O FIM

Depois de ter trabalhado com um doente com cancro, deixando-o enfrentar a doença e a morte, podemos ver a diferença entre a sua força agora, comparada com a que sentia antes.

Na sua situação, é isto que é necessário, enfrentar o fim. Se somos capazes de o enfrentar realmente, sentimo-nos melhor e estamos em contacto com a fonte da vida. Porque a morte e a vida estão juntas. Estamos vivos porque outros morreream antes. A morte de outros abriu caminho para a nossa vida. E se morrermos, a vida continua para outros. Deixamos espaço para eles. É um círculo de que fazemos parte. Podemos viver as nossas vidas plenamente se estivermos em sintonia com o fim. Este entendimento exige que o terapeuta também esteja em sintonia com a sua morte, que não tenha medo da morte pessoalmente e não tenha medo da morte do cliente. Então sentir-se-á muito calmo. Isto é tudo o que tenho de fazer. Se tentasse mais alguma coisa, estaria a tirá-lo àquilo que ele experienciou.

A ALMA

Queria dizer qualquer coisa acerca da "alma". Temos a ideia na sociedade ocidental que temos almas. Isto remonta à filosofia grega, em grande parte, a partir de Platão. A ideia é que temos um corpo, e esse corpo inclui uma alma. Assim a alma está aprisionada no corpo. Essa alma não se sente feliz no corpo. Tem tendência para deixar o corpo depois de algum tempo. Para ajudarmos a alma a partir, primeiro temos de salvá-la. Já ouviram falar disto? Salvar a alma? Não é uma ideia estranha, quando pensamos nisso, que possamos salvar as nossas almas?

Quando trabalhamos com as constelações familiares, é nos mostrado que estamos ligados a uma força maior. Esta força maior é o saber, cheio de sabedoria, e está a guiar-nos activamente em direcção a um alvo. Podemos ver isso numa família: todos os membros da família agem como se fossem guiados pela mesma força ou pela mesma consciência, como se tivessem uma consciência comum. É esta a razão porque estamos ligados a pessoas no passado que tinham um destino especial.

Por outras palavras, se, digamos, lhes foi feita alguma injustiça, podemos agora estar ligado a eles. Como é que isso é possível? Como é possível que a injustiça feita a alguém no passado será retomada por outro membro da família que nunca conheceu a pessoa? Como é que pode ser que a segunda pessoa seja obrigada a reparar a injustiça feita na geração anterior? Deve existir uma força em comum a trabalhar que os liga.

Também tenho ideia que podemos viver como seres humanos somente se estivermos ligados sempre ao que está fora de nós. Qualquer troca com o ambiente deve ser guiada por alguma coisa que também nos una, o ambiente e nós, de maneira que possamos interagir de maneira saudável. A evolução é alimentada por uma troca constante e existe uma força orientadora que faz avançar a evolução. A esta força maior eu chamo alma.

Quando trabalho aqui, devo entrar em contacto com essa alma maior. Essa alma guia-me para que eu possa estar em harmonia com a outra pessoa. Logo que esteja em sintonia, posso trabalhar com ele ou com ela e fazer exactamente o que é necessário nesse contexto particular. Portanto, não estou só a pensar no que está correcto, não estou a teorizar acerca disso, eu sei o que fazer a seguir estando em harmonia com a pessoa.

A alma tem dimensões diferentes. Aquilo que vou referir agora são imagens que querem somente aflorar uma ideia. Esta não é "verdade" por si, mas algumas observações sugerem que se pensarmos nestes termos ou imagens, percebemos melhor o que acontece na terapia.

Um corpo mantém-se unido por uma força comum. Todo o metabolismo é dirigido por alguma coisa que sabe o que está correcto. Não é uma força cega que superintende o que acontece no corpo. Esta tem uma certa direcção. Essa força é a alma. A alma mantém os órgãos juntos e guia-os de uma certa maneira, e assim a vida é protegida e continua. Esta é a minha noção de alma relativamente ao corpo.

A família como um todo é também guiada por uma alma comum, a alma da família. Podemos ver até onde esta alma alcança. Podemos descobrir o limite desta alma. Assim, podemos descobrir quem é que rodeia e está incluído dentro da alma desta família. Agora, quem é que pertence à alma da família? Primeiro são as crianças, todas as crianças. Mesmo as crianças que ainda não nasceram estão incluídas nesta alma da família. Frequentemente, as crianças que não nasceram devido a um aborto também estão incluídas, mesmo que seja um aborto espontâneo. A seguir, os pais e os seus irmãos e irmãs pertencem a este grupo, assim como os avós e às vezes os bisavós. Estes são os parentes de sangue que estão incluídos dentro desta alma da família.

Além disso, existem outras pessoas incluídas na alma da família e que não são parentes. Aqueles que abriram caminho para alguém dentro do sistema. Por exemplo, o primeiro cônjuge do pai ou da mãe ou do avô e da avó, que, depois de morte ou de divórcio, abriram um espaço para outra pessoa entrar no sistema - a nossa própria mãe ou pai talvez ou o nosso avô ou avó. Aqueles que criaram espaço pertencem à família porque contribuíram para este sistema particular.

Além disso, como um trabalho mais recente mostra, todas as vítimas que sofreram às mãos de um membro da família também pertencem a esse sistema. Vou contar um exemplo: em São Paulo, Brasil, estávamos a montar uma constelação duma família duma mulher cujo filho era psicopata e tóxicodependente. Uma vez constituída a família, tornou-se claro que ele estava ligado a alguém que não era mencionado nem lembrado. Estava a olhar para fora. Então, perguntei o que tinha acontecido na geração anterior. Respondeu a mulher, que o bisavô era um grande proprietário de terras e que tinha tido escravos. A riqueza da família descendia em grande parte do trabalho e sofrimento dos escravos. Então coloquei seis representantes dos escravos. Quando já estavam colocados, o representante do jovem mostrou um profundo amor por eles. Dirigiu-se a eles, abraçou-os, chorou e sentiu uma profunda ligação com eles. Os escravos pertenciam àquele sistema familiar.

Também coloquei o avô. Não tinha qualquer tipo de compaixão pelos escravos. E a mãe também não. Era este jovem tóxicodependente que tinha a ligação mais próxima com eles. Foi movido pela alma de família.

Se existirem vítimas na família, por exemplo, na Alemanha, as vítimas do Holocausto, é claro que esta vítimas pertencem às famílias. Mas os seus assassinos também pertencem ao sistema da família. Isto acontece quando montamos uma constelação duma família com sobreviventes do Holocausto, ou os seus descendentes. Nestas famílias, frequentemente, um membro representa os criminosos. Só se os criminosos forem incluídos, poderá a família ter paz.

O que é que significa incluir os criminosos? Devem ser amados como seres humanos. Não os podemos excluir na nossa integridade moral. Eles, também, mesmo que pareça horrível, seguiam as suas consciências. Estavam ligados ao seu grupo e o que fizeram foi feito ao serviço do seu grupo, frequentemente com boa consciência. Portanto, não são, à sua maneira, diferentes das vítimas. Podemos ver nas constelações familiares que as vítimas só encontram paz se os criminosos forem aceites por elas numa base de igualdade. E os criminosos só encontram a paz se ficarem ao lado das suas vítimas.

Facilitei uma constelação em Buenos Aires, Argentina, há seis semanas. Havia um homem que disse ter medo de ser um perigo para os seus filhos. Quando conduzia, de repente percebeu que estava a conduzir imprudentemente, sem considerar a segurança dos filhos. Tinha medo de poder causar a morte dos filhos num acidente. Era um descendente de sobreviventes do Holocausto. Então, coloquei representantes das vítimas, e representantes dos criminosos. Depois de estarem colocados, ele chorou em voz alta. Ficou cheio de dor, batendo no chão violentamente. A sua energia era a de um criminoso, mas não podia ver as vítimas. Demorou muito tempo até as conseguir ver.

No fim, dirigiu-se a cada um dos representantes das vítimas no chão e abraçou-as com um amor profundo. Dirigiu-se depois a cada um dos criminosos e tocou-lhes na face com amor. Os criminosos pareciam derreter-se, ficando muito doces, e a constelação acabou.

Depois da constelação, o homem ficou sozinho em palco. Fui até ele e disse: "Agora imagina os teus filhos à tua frente." Olha para eles e diz-lhes: "Agora preocupo-me com vocês." Foi capaz de lhes dizer esta frase agora com sinceridade.

Compreendem finalmente porque é que eles devem ser incluídos todos? O que é que isto mostra? Todos os seres humanos são guiados por uma força maior, por alguma coisa que os ultrapassa. Façam as pessoas o que fizerem, bom ou mau, terá de ser visto não só como da sua própria responsabilidade (embora tenham uma certa responsabilidade), tem de ser compreendido dentro do limite daquela força maior.

ACERCA DA ESPIRITUALIDADE

Quero dizer umas palavras acerca da espiritualidade. O Instituto Omega é um lugar espiritual, como é do meu conhecimento. Existe muita procura para a realização espiritual. Vou dizer mais qualquer coisa acerca dessa procura sob a minha própria perspectiva e baseando-me na minha própria experiência.

Como mencionei esta manhã, a procura para a iluminação espiritual reflecte frequentemente o desejo de atingir o máximo de experiência. O ponto mais alto é um lugar muito triste, um lugar muito triste. Poucas pessoas o aguentam por muito tempo. Mas uma vez atingido o ponto mais alto, têm medo de voltar para trás, todo o caminho para trás. Para chegar ao ponto mais alto exigiu um esforço tão grande, preocupam-se com o que terão de fazer na origem. Assim permanecem a meio caminho entre o pique e a origem - não tendo qualquer deles.

A maior realização espiritual é a mais humilde. Quando vejo pessoas que fazem meditações há já muito tempo, à espera da iluminação, pergunto-me: "Em que é que estão a contribuir para a humanidade"? A resposat é: Nada.

Uma vez falei com um mestre de Zen na Alemanha, que ia a Kyoto no Japão muito frequentemente, para participar em sessões de Zen. Tinham uma sessão durante dez dias, meditavam todos os dias, dez horas ou mais, alguns até dezasseis horas por dia. Disse-me que ficavam cheios de energia depois. Perguntei-lhe o que faziam com aquela energia. Respondeu: "Bem, vão para a cidade e divertem-se com as geishas." Perguntei-lhe se aquilo era o alcance da realização de uma sessão. Achei isto estranho, muito estranho.

O Zen tinha sido originalmente concebido como uma forma dos guerreiros aprenderem a lutar de maneira eficiente. Naquele contexto o Zen tinha significado. Sem ele, a meditação não tem significado.

Quando comparado com uma mãe que cria cinco filhos, que força tem um monge que passa a sua vida a meditar? A tarefa da mãe é verdadeiramente espiritual, humilde, humana, na origem.

Mais, quando as pessoas falam de espiritualidade, vejo o que elas querem na realidade atingir - ouso dizê-lo abertamente? - a mãe deles. O desejo da espiritualidade, da realização espiritual, muito frequentemente é o desejo da mãe. O que é que aconteceu ao Buda? Perdeu a mãe quando nasceu. Isto foi o que aconteceu. Isto foi mais tarde parafraseado por diferentes tipos de histórias, incluindo a que diz que quando ele viu uma pessoa morta pela primeira vez, mudou a sua vida e abandonou a mulher e o filho. Mas a primeira pessoa morta de quem ele soube no fundo do seu coração, foi a sua mãe, que morreu ao dar-lhe a vida. Se tivermos isto em atenção, somos capazes de perceber os seus ensinamentos acerca da fuga ao sofrimento. Este é o ensinamento de uma criança que perdeu a mãe à nascença.

Não, não digo que os ensinamentos do Buda devam ser ignorados. O Budismo é um grande movimento e tem tido grandes efeitos na humanidade. Não questiono isto de maneira nenhuma.
Contudo, se olharmos para ele sob este ponto de vista, veremos que é normal também. É um movimento humano normal. Não vejo o que tenha a ver com coisas para além de.

Também observei que quando as pessoas tomam um caminho espiritual e se tornam esotéricas, frequentemente recusam cuidar de uma criança ou abandonam as suas esposas. Recusam aceitar realizações humanas comuns e responsabilidades que custam alguma coisa. Erguem-se do chão para um nível chamado de espiritual. Mas estão centradas em si próprias. Podem falar em perder o ego, mas em que estão a meditar? No seu ego, de certeza. E o que dizer acerca do seu desejo pela iluminação? Para que é que a querem? Para o seu ego, de certeza. Existe uma grande decepção em tudo isto.

Agora existe outro caminho espiritual: a noite negra da alma. Em Espanha, St. John of the Cross ensina sobre a noite escura da alma. Isto é um treino espiritual e demora muito tempo. Não o podes exercitar ou desejá-lo. Acontece-te. A noite escura acontece-te. Quando acontecer, já não sabes onde ir. Tudo é escuro, e tu sentes-te desolado, sem direcção. Mas és suficientemente forte para te aguentar. E, momentos depois, experimentas a noite escura da alma.

A noite escura tem três partes. Primeiro temos a noite escura dos sentidos, quando tu já não procuras o que agrada à vista, ao ouvido ou a qualquer outro sentido. Isto acontece não por que o desprezes de qualquer maneira, isso seria uma resposta num nível diferente. Não, isto é porque está ligado a algo mais profundo, um lugar onde está tudo muito quieto, muito calmo. Neste nível, jamais precisas de olhar para fora ou ouvir alguma coisa. Este é um local muito grande.

Por outras palavras, o caminho espiritual requere purificação, sobretudo purificação de toda a intenção de atingir "realizações superiores." Ficas na origem todo o tempo.

A segunda parte desta noite é muito difícil. É a noite escura do espírito. Renuncias ao teu desejo de saber. Não fazes perguntas, tais como: "Porquê?", "O que é isto?", "O que é aquilo?", "O que é que acontece depois?" Não, ficas quietoo separado desta necessidade de saber.

Ainda há outra parte: a noite escura da vontade. Já não desejas concretizar nada. Se tiveres um plano, por exemplo, queres aprender constelações familiares e fequentas muitos cursos, isto é uma coisa boa talvez. Mas se tiveres um plano para mudar o mundo através deles, és separado da verdadeira origem. Se abandonares estes grandes planos - se não quiseres curar outras pessoas ou tornar o mundo num lugar melhor, se ficares só contigo - então outro caminho se abrirá para ti. Podes sentir um impulso de dar só um passinho, e ao seguir este impulso, tu descobres mais do que todos os planos do mundo te trariam. Agora está de repente ligada a outra coisa, estás sintonizado com algo maior.

Assim, no fim deste debate, estamos de volta àquilo que referi esta manhã, o Alfa.

AMOR

No outro dia, estava a pensar no amor. Imagino que alguém diz a outra pessoa: "Amo-te." O marido diz à esposa, um homem diz a uma mulher: "Amo-te." Toca o coração de ambos. Mas será que tem força? É este amor que é expresso no momento suficientemente forte para durar uma vida, mesmo quando surgem dificuldades? Não, é muito fraco.

Deveria haver mais alguma coisa a acrescentar a esta frase. "Amo-te" deveria ser seguido por "e aquilo que me guia a mim e a ti." Amo-te - e aquilo que me guia a mim e a ti. Se ambos os parceiros disserem isto, a afirmação tem força.

Mas o que é que significa na vida real? Significa que podem ficar juntos por algum tempo, seguirem o mesmo caminho durante algum tempo, mas então pode acontecer que sejam conduzidos em direcções diferentes. Naquele momento, quando se separam a um nível, ambos dizem: " Amo-te - e aquilo que me guia a mim e a ti." Mesmo que ocorra uma separação ou um afastamento ligado a isto, o amor continua a um nível muito profundo. Este tipo de amor é a base do respeito. Respeito uma pessoa quando lhe digo: "Amo-te - e aquilo que me guia a mim e a ti." Amo-te exactamente como tu és, porque vejo aquilo que me guia a ti e a mim. E quanto ao respeito próprio é o mesmo. Olho para mim exactamente como sou e digo: "Sim, amo-me - e aquilo que me guia."

Coms os pais e os filhos, temos idêntica situação. Os pais olham para os seus filhos e dizem: "Amo-te - e aquilo que te guia a ti e a mim." E os filhos olham para os pais e dizem: " Amo-te - e aquilo que me guia a mim e a ti." São todos indivíduos e contudo estão ligados de um modo muito profundo.

No primeiro dia deste seminário, um homem veio trabalhar. Tem cancro e vimos a sua ansiedade. A questão para mim era: "O que vou fazer?" Digo: "Amo-te - e aquilo que te guia a ti e a mim." Assim não vou além do que a minha orientação interior me permite. E eu concordo com aquilo que o está a guiar, mesmo que o conduza à morte. Naquela base de respeito mútuo profundo e amor, algo pode fluir entre o cliente e o terapeuta. Não existe diferença entre eles. Estão sempre ao mesmo nível. E curvam-se a algo maior.

PAZ DE ESPÍRITO

Quero dizer algo sobre a paz. Ás vezes falamos da paz de espírito. O que é a paz de espíriito?

Se concordamos com tudo aquilo que existe em nós, então temos paz de espírito. Se não nos opusermos a nada dentro de nós, temos paz de espírito. E se concordamos com tudo dentro das nossas famílias, com os nossos pais, com os irmãos, com os nossos antepassados, com os nossos destinos, então temos paz de espírito. Se nada se opuser a alguma coisa, temos tranquilidade de espírito.

Se temos tranquilidade de espírito, também temos paz com a família. Se tens filhos e se os aceitas como são, exactamente como eles são, com os seus próprios destinos, com as suas dificuldades, com os seus talentos, com o seu amor especial, tens paz na família.

Se aceitares o teu companheiro desta maneira, como ele ou ela são, sem qualquer desejo de o mudar ou de a mudar, tens paz de espírito. E quando tiveres de lidar com outros grupos que parecem difíceis ou se opõem, e tu concordas com eles conforme são, exactamente como são, tornas-te irresistível.

Certamente que podes alargar esta atitude a diferentes raças, diferentes religiões, diferentes nações. Se concordares com todos eles como eles são, exactamente como eles são, não existirá jamais oposição. Estás em paz com eles e eles, certamente, ficarão em paz contigo e connosco.

(Tradução de Raquel Romãozinho)