PEQUENAS PALESTRAS EM TAIWAN

 

Proferidas por Bert Hellinger entre 12 e 14 de Outubro de 2001, num Seminário em Taiwan. Inclui também algumas partes de Constelações Familiares facilitadas por Hellinger no palco.


VERDADE

Para começar, quero dizer algo acerca da verdade. Não sei como é entre os Chineses. Na Europa, querem frequentemente encontrar a verdade real, até mesmo a verdade eterna, a verdade imutável. Esta verdade que é eterna e imutável existe apenas na mente.

A verdade real é diferente. É sempre uma parte da verdade. Nunca se consegue alcançar a verdade absoluta. E não é apenas uma pessoa que consegue atingir a verdade absoluta. Mas as experiências de muitas pessoas, de muitas nações e de muitas culturas, que chegam perto da verdade. Isto pode não ser inteiramente verdade, mas é válido. Esta é uma das mais importantes partes da verdade, se é válida.

A verdade conduz à luz. Mas, para além dessa luz, muito fica ainda na escuridão. A verdade conduz à luz e mergulha novamente na escuridão. Depois de algum tempo, surge de novo, é ligeiramente alterada e mergulha novamente.

Isto acontece nas constelações familiares. Nunca atingimos a verdade total. Mas algo importante vem à luz. É apenas uma parte do todo, e mergulha de novo. Depois de algum tempo vem ao de cima, de certo modo desenvolveu-se e mergulha novamente.

Se tivermos visto alguma coisa aqui e o escrevermos como uma verdade, estamos a impedir o desenvolvimento desta verdade, porque estamos a pensar que ela é fixa. Portanto, se a deixarmos mergulhar e nos esquecermos dela, algum tempo depois ela vem ao de cima. Na altura certa, virá ao de cima. Não é uma verdade que possam seguir, porque eu o disse. Esta verdade aparece na vossa alma e adapta-se exactamente a vocês.

Uma das consequências do que acabei de dizer é que, enquanto terapeutas, não tentem encontrar a verdade total para o vosso cliente. Abstenham-se de pensar que podem resolver todos os seus problemas. É suficiente o facto de um ponto importante ter vindo à luz. É como uma fagulha que, depois de algum tempo, ateia uma grande fogueira.

Bem, esta foi a minha introdução para hoje. Agora vou continuar com o trabalho prático e pode ser que surja alguma linda verdade.

CONFIAR NUMA ALMA MAIOR

Quero dizer algo sobre este tipo de trabalho. Difere muito da habitual psicoterapia. Na psicoterapia comum, o terapeuta é treinado para trabalhar com uma pessoa individual (a pessoa enquanto indivíduo). A pessoa traz um problema pessoal e ele aplica as suas capacidades para a ajudar. É necessária uma longa prática para conseguir ajudar essa pessoa e, de acordo com a prática será melhor ou pior terapeuta. Alguns dos métodos ensinados destinam-se a serem repetidos. Tal como numa experiência científica, podemos repetir a mesma experiência se conseguirmos as mesmas condições. Assim, na psicoterapia científica, temos muitas vezes a noção de que possuímos certos métodos e que se os aplicarmos correctamente, o sucesso será garantido. Desta forma, não estamos a ter em consideração a alma da pessoa. Isto é mecânico.

Aqui, não sou eu, na verdade, que trabalho. Posso fazer pouco uso das minhas faculdades, porque o resultado não depende das minhas capacidades. Existem outras forças em jogo que decidem se eu vou ou não obter sucesso. Se uma constelação for bem sucedida, não é porque eu sou bom, mas sim porque quer a alma dessa pessoa, quer ao mesmo tempo uma alma maior conseguiram uma boa solução. Portanto, eu tenho de estar em sintonia com uma alma maior, uma alma que cuida de todos nós da mesma forma.

Se alguém chegar ao pé de mim e disser “Você tem de trabalhar comigo, senão não consigo resolver o meu problema”, o que é que me acontece? Nesse momento perco contacto com a alma maior. E a pessoa, ao dirigir-se a mim daquela forma, não está em sintonia com a alma maior. Portanto, quem estiver muito ansioso por trabalhar comigo, não estará a dar-me a mim e à alma maior, oportunidade de ajudar. Assim, eu não escolho as pessoas porque elas me pedem. Não as escolho por estarem na lista. Escolho-as de acordo com a alma maior. Algumas vezes sinto, sim tenho de trabalhar com aquela pessoa e outras vezes sinto que não devo trabalhar com aquela pessoa.

Se alguém está muito ansioso por trabalhar comigo, não vai aprender sobre as outras constelações, porque se fixou em mim. Desta forma, deixa de aprender aquilo que é oferecido a todo o grupo. Muitas vezes, se alguém está só a assistir ao que se passa, acreditando na alma maior, encontra uma solução sem ter trabalhado comigo. Outra coisa actuou. Assim, este trabalho só resulta se estivermos em sintonia com algo que se encontra para além de nós próprios.

O mesmo se aplica aos representantes aqui presentes. Alguns podem ser muito bons terapeutas e por vezes pensam – oh sim, seria um bom movimento. Nesse momento descansam nas suas capacidades, mas podem perder contacto com a alma maior. Portanto, normalmente, se você for um representante, não actue antes de ser conduzido por algo que se torna irresistível. E não tenha qualquer intenção ou desejo de ajudar o cliente. De outra forma, toma o lugar da alma maior. E falhará. Os movimentos da alma maior são muito lentos e leva algum tempo até que se tornem visíveis. Portanto, dou todo o tempo ao desenvolvimento desse movimento da alma.

Algumas vezes podem sentir “Oh, o que sinto agora está errado”. Por exemplo, se um homem sentir um súbito amor incestuoso pela filha. Pode sentir medo de dizer isto, porque pode recear que as pessoas possam pensar que ele próprio nutre estes sentimentos. Mas ele é um representante. Ele sente as coisas da pessoa que ele representa. Se ele não disser o que efectivamente sente, bloqueará a constelação. O que quer que que seja que o representante demonstre, não são realmente os seus próprios sentimentos. São os sentimentos de outra pessoa.

Vou contar-vos algo da última constelação. Era um homem que era o representante do rapaz mais velho da constelação da sua mãe. A mulher contou-me depois que este rapaz, que tinha oito anos, sempre expressara o desejo de morrer. Portanto, o representante expressou muito correctamente na constelação o que se passava com o rapaz. Também foi muito claro que não podíamos ajudar a mulher. Portanto, se não a posso ajudar, pode querer dizer que ela não se encontra preparada, não está sintonizada com a alma maior, e eu não devo interferir por quaisquer meios, de forma a ajudá-la. Tenho de me render à alma maior.

A DIGNIDADE DO TERAPEUTA

O terapeuta mantém sempre a sua dignidade. Se alguém brincar com ele, não trabalhará com essa pessoa. Isto é muito importante. Tal como o terapeuta respeita o cliente, este tem de respeitar o terapeuta. Se o cliente tiver magoado, de certa forma, o terapeuta, deverá reparar o mal que fez, de forma a que exista de novo uma base de igualdade. Tem de mostrar o devido respeito. O terapeuta desforra-se, não trabalhando com aquele cliente.

Existe também, evidentemente, uma hierarquia. O cliente quer alguma coisa do terapeuta. Portanto, o terapeuta tem o primeiro lugar. Algumas vezes, os clientes tratam os terapeutas dizendo “Tem de fazer isto por mim”. Passam-no para baixo. Então eu digo-lhes “Se quer tomar a liderança, faça o favor, mas sem mim, claro”.

A DUPLA TRANSFERÊNCIA

Vou explicar um pouco esta matéria. A forma como ela falou sobre isto implica que tenhamos que lidar com uma dupla transferência. O que é uma transferência dupla? Normalmente encontramos uma dupla transferência especialmente nas mulheres, com algumas excepções.

Uma dupla transferência funciona assim. Existiu uma mulher muito atrás na família que foi magoada por um homem. Esta mulher não se vingou, limitou-se a sofrer. Mas por trás desse seu sofrimento havia muita raiva. Assim, algumas gerações mais tarde, uma rapariga como ela toma a raiva desta mulher. Sente exactamente a raiva desta mulher, que por ela foi reprimida. É a transferência no sujeito, entre as pessoas, dessa outra mulher para ela. Esta raiva é então expressa, não em relação à pessoa que magoou a outra mulher, mas sim contra uma pessoa inocente, como o seu querido pai. Isto é a transferência no objecto.

HELLINGER para o cliente: “Isto faz sentido para si?”

CLIENTE: “Não estou satisfeito com a atitude do meu pai para com a minha mãe.”

HELLINGER para o Grupo: “Ela ainda está na dupla transferência. Ela sentir-se-á sempre magoada, independentemente do que o pai disser. Não importa o que ele diz, porque ela não reage ao que ele diz. Ela possui os sentimentos de outra mulher e expressa-os sem qualquer ligação ao contexto.”

Muitas discussões numa família entre homens e mulheres têm a sua origem numa dupla transferência. Podemos ver se existe uma dupla transferência. Discutem sempre sobre a mesma coisa. As pessoas de fora não percebem. Não existe uma razão óbvia para a discussão. É como a sombra chinesa de boxe. Vemos as sombras das pessoas a jogar boxe, mas não vemos as pessoas verdadeiras.

ORDENS DE AMOR ENTRE OS SISTEMAS

Vou falar um pouco sobre as ordens de amor entre os sistemas. Dentro de um sistema, os que chegaram primeiro pertencem a uma classe superior aos que chegaram depois. Os pais chegam antes dos filhos, os que nasceram antes têm precedência sobre os que nasceram depois, e assim por diante. Entre sistemas, o novo sistema tem precedência sobre o anterior. Se um casal se casa, forma um novo sistema. Este sistema toma o primeiro lugar em relação às suas famílias de origem. É por isso que ambos têm de deixar as suas famílias para trás, de certa forma, e dar toda a sua energia, em primeiro lugar, à sua nova família.

Se já tiverem sido casados e, por exemplo, o homem tiver um novo relacionamento e deste novo relacionamento tiver uma criança, então este será um novo sistema. O homem terá, então, de deixar a sua família e ir para a sua nova mulher. Isto é difícil de compreender, mas qualquer tentativa de resolver o problema de outra forma, normalmente, falha. Por exemplo, um homem tem sete filhos da sua mulher, e conhece outra mulher, dorme com ela e ela engravida. Terá então de deixar a sua mulher e os sete filhos e ir viver com a nova mulher. Claro que continua responsável pelos filhos e pela primeira mulher, mas esta não pode pedir-lhe que volte. Porém, o novo sistema só é criado se existir uma criança. Uma relação de amor por si só não estabelece um novo sistema. No entanto, se dessa relação existir uma criança, ainda que possa ter abortado, existe um novo sistema.

OS PROBLEMAS SÃO SUSTENTADOS POR UMA BOA CONSCIÊNCIA

Outro segredo.

A NETRA: “Conto segredos, uns atrás dos outros. Normalmente, quando um cliente vem a um terapeuta, ele ou ela não quer de facto resolver o problema. Quer que o terapeuta lhe confirme a existência desse problema. É por isso que, quando começam a falar do seu próprio problema, começam a hipnotizar o terapeuta, para que no final concorde com ele, tal como lhe é apresentado. A hipnose leva pouco tempo, portanto o terapeuta evita ser hipnotizado se permitir apenas três frases. Claro que já vimos que quando apresentam o seu problema, não se trata, de facto, do seu próprio problema. Tive de descobrir o problema. Era muito diferente do que esperavam. Ainda relacionado com isto, se alguém tem um problema, tem-no com uma boa consciência. Se você resolver o problema, ele terá uma má consciência. porque se você resolver o problema, ele está a seguir outro caminho que não o permitido pela sua família. Portanto, vai sentir-se culpado em relação à família. Logo, você só pode ter soluções com uma má consciência .

Algumas vezes os clientes falam das suas doenças – que podem ser doenças terríveis – mas sorriem. Não é estranho? Eles necessitam das suas doenças, para terem uma boa consciência. Uma boa consciência significa, neste contexto, que sentem isso por causa dos seus problemas e das suas doenças, têm um maior direito a pertencer às suas famílias. Na última constelação, a mãe, ao seguir a sua mãe, tinha uma boa consciência. A filha, neste caso o cliente, ao morrer seguindo a sua mãe, tinha uma boa consciência. Sente que lhes pertence. E o seu filho, ao morrer, tem uma boa consciência. Sente que tem um direito maior de pertencer do que anteriormente.

Como vêem, a terapia não é assim tão fácil. Têm de ter muito cuidado. Mas uma vez que tenham consciências destas normas, vão em frente.”

A CONSCIÊNCIA COLECTIVA E AS SUAS LEIS

CLIENTE: “Por dentro, uma parte de mim quer salvar os meus pais. Sinto que querem desaparecer.”

HELLINGER: “Vou dizer-lhe um segredo. Todos os filhos, sem excepção, que quiserem salvar os pais falharão. Desta forma colocar-se-ão acima dos pais. Isto só pode falhar. Vou explicar este facto mais pormenorizadamente.

Um dos grandes conhecimentos das constelações familiares é que somos guiados por uma consciência inconsciente, por uma consciência colectiva. É um grupo muito especial que é guiado por esta consciência. Esta consciência colectiva toma conta do grupo e leva-o a realizar acções às quais não podem resistir. É um grupo restrito, o que é dirigido por esta consciência colectiva. Vou agora dizer-lhes como são estas pessoas. É muito importante que não esqueçam isto.

A este grupo pertencem as crianças, depois os pais, depois os irmãos e irmãs dos pais, os avós e, por vezes, um outro bisavô. São os parentes de sangue. Isto significa que, por exemplo, os irmãos e irmãs dos avós não pertencem a este grupo, bem como os primos, só aqueles que enumerei. Mas, muitas vezes, isto ainda vai mais atrás, como vimos hoje na primeira constelação.

Existem outras pessoas, que não são parentes de sangue e que pertencem a este grupo. São os que criaram lugar para este e para aquele dentro desse grupo. Por exemplo, anteriores parceiros de pais ou avós criaram lugar para os últimos. Pertencem a esse grupo. É por isso que eu às vezes pergunto se o pai ou a mãe foram casados anteriormente ou se estiveram envolvidos numa relação significativa. Por exemplo, se o pai tiver tido um relacionamento com outra mulher e tiverem tido uma criança que tenha abortado, então a primeira mulher pertence ao sistema, tal como a criança que abortou.

Se tiver existido um assassínio na família, as vítimas do assassino pertencem a este grupo. Ou se tiver havido uma vítima de assassínio na família, então o assassino também pertence a esse grupo. Não consigo explicar porquê, mas é muito claro nas constelações familiares que fazem parte desse grupo.

A consciência colectiva segue determinadas leis, leis essas que são muito importantes. Estas leis são inconscientes, mas tornam-se visíveis através das constelações familiares. A primeira lei é que ninguém deve ser excluído desse grupo. A ninguém que pertença a este grupo pode ser negada a qualidade de ser seu membro. Se se fizer isso, então um membro deste grupo de uma geração posterior terá de representar a pessoa excluída, por exemplo, uma criança que tenha sido atraiçoada. Mas eles não sabem que representam este membro. É esta consciência colectiva que os apanha e os conduz numa certa direcção. Isto é uma rede. Portanto, a solução é que a pessoa excluída seja de novo incorporada neste grupo. Então a pessoa que tinha sido enredada no destino da outra pessoa ficará livre.

Há uma segunda lei importante nesta consciência colectiva. Os que tiverem sido membros anteriores do sistema possuem uma categoria mais elevada do que os que se tornarem membros mais tarde. Assim, os pais têm uma categoria superior aos filhos e os que nasceram primeiro têm uma categoria superior aos que nasceram depois.

Esta lei é muito restrita. Se alguém violar esta lei será castigado pela consciência colectiva. Por exemplo, se este cliente disser que quer salvar os pais, não só falhará no seu objectivo como será castigado pela consciência colectiva. Se eu, como terapeuta, permitir ou aceitar isto, estarei a magoá-lo.

Se ele o fizer, fá-lo-á fora do amor e sentir-se-á bom e inocente. No entanto, estará a agir contra as leis da consciência colectiva. Embora se sinta inocente, será punido se o tentar fazer.

Vou demonstrar, num breve exercício, qual é a solução.”

Hellinger selecciona representantes para os pais deste cliente e coloca-os lado a lado. Depois coloca o cliente em frente deles.

Hellinger diz-lhe para lhes dizer: ”Vocês são grandes e eu sou pequena; vou continuar pequena”. Agora ponham-se de joelhos e inclinem-se até ao chão. Com as mãos para a frente e as palmas das mãos viradas para cima.

Para o grupo: “É esta a solução. Os pais são grandes e os filhos continuam pequenos.”

Para outro cliente a quem ele antes tinha questionado: “A propósito, isto também é um bom exercício para nos vermos livres das dores de costas.”

Depois de um momento, para a cliente: “Olhe agora para os seus pais. Como se sente?”

Cliente: “Estão maiores.”

Hellinger para o grupo: “Estabeleci a ordem correcta de acordo com as leis da consciência colectiva.”

Para a cliente: “Olhe para a sua mãe e diga ao seu pai: A mãe é muito melhor do que eu”

Cliente: “A mãe é muito melhor do que eu”

Hellinger: Diga-lhe também: “És muito maior do que eu”

Cliente: “É muito maior do que eu”

Hellinger: “A mãe é grande e eu sou pequena”

Cliente: “A mãe é grande e eu sou pequena”

Hellinger: “A mãe é a melhor mulher para o pai”

Cliente: “A mãe é a melhor mulher para o pai”

Hellinger para o grupo: “Vocês viram, ela era a filha do pai, a querida do pai. A querida do pai falha. Em especial, terá dificuldades quando casar. Porque a filhinha do pai não respeita os outros homens. A filhinha da mãe tem respeito pelos outros homens.”

O mesmo se aplica para o filhinho da mãe. O filhinho da mamã não respeita as outras mulheres.”

Para o cliente: “Já lhe fiz alguma terapia, apesar de tudo. Ok?. Bem”

Para o grupo: “Fui claro?”

A dificuldade com as redes é que fazemos o que é para nosso próprio prejuízo com uma boa consciência. Ela, por exemplo, estava a sacrificar o filho, com uma boa consciência. Só se conhecermos todas estas ligações é que poderemos fazer constelações familiares. Felizmente, desde que Netra traduziu “Love’s Hidden Symmetry” (“A Simetria Oculta do Amor”) encontraremos os pormenores do que eu acabei de dizer neste livro. Isto é uma grande ajuda para todos os que quiserem praticar constelações familiares.

SOBRE O AMOR

Posso dizer alguma coisa sobre o amor e os relacionamentos humanos. Quando um homem e uma mulher são jovens, se encontram e se apaixonam, pensam - isto é o paraíso na terra. E, de certa forma é. É maravilhoso, durante uns tempos. Mas será que o homem vê a mulher e que a mulher vê o homem? Não, porque isto é o que chamamos de amor à primeira vista, e à primeira vista, não vemos muito, efectivamente. Portanto, o homem ama uma imagem de uma mulher e a mulher ama uma imagem de um homem. Para ambos, o homem e a mulher, a imagem é a mesma. É a imagem da mãe ideal. Ambos pensam que encontraram a mãe ideal. Mas, passado algum tempo, descobrem que isso não é verdade. Então começa o amor à segunda vista. Isto significa que ambos têm de ver a outra pessoa tal como é. E, o que é pior, têm de amar a outra pessoa tal como ela é, sem nenhum desejo de que a outra pessoa seja diferente.

Apontando para um jovem casal na audiência: “Aqui temos um exemplo de amor à primeira vista.”

Não só temos de ver a outra pessoa tal como ela é, como também temos de reconhecer que ambos estão inseridos na sua família. Carregam um fardo da sua família e não podem alterar isto. Assim, o amor à segunda vista significa que amamos o nosso companheiro, não só como ele é, mas também amamos a família dele, exactamente tal como é. Isto não é assim tão fácil. Mas se conseguirem, o amor deles será muito mais seguro. Terá força.

Mas, com o decorrer do tempo, ambos os parceiros realizam diferentes experiências. Desenvolvem-se de forma diferente. Mudam. Portanto, depois de trinta anos os parceiros não são o mesmo que eram quando se conheceram. E nós devemos amar, também, este desenvolvimento. Devemos amar o nosso próprio desenvolvimento, as nossas próprias experiências e devemos amar o desenvolvimento do nosso parceiro e as suas experiências especiais. E pode muito bem acontecer que, ao fim de um certo tempo, os seus caminhos se separem. Não por serem maus ou talvez por se sentirem culpados. Não, apenas evoluem de forma diferente. Portanto, se esse relacionamento se desfizer, ninguém sai derrotado. É apenas uma ilusão que é derrotada.

Logo, podemos dizer ao nosso parceiro e o nosso parceiro pode dizer-nos “Eu amo-te e amo aquilo que me conduz a mim e a ti de forma especial”. Assim, mesmo que os seus caminhos se separem, ao aceitarem este tipo de amor, continuam de certa forma ligados, ainda que separados. Isto é amor à segunda vista, um amor muito profundo. Não é o amor celestial, não é o céu na terra, é apenas terreno. Mas aqui reside a verdadeira força.

Para o Cliente: “Ajudei-o?”

Cliente: “Compreendo, mas ainda me sinto triste”

Hellinger: “É normal”

Para o Grupo: “Se um relacionamento se quebra ao fim de tantos anos, em especial se existirem três crianças e tantas experiências em comum, é normal sentir-se tristeza. Mas esta tristeza, se o permitirmos, ajuda-nos a recuperar. Esta tristeza é um sinal de como este amor era forte. É, portanto, normal. Se deixarmos fluir esta tristeza, ao fim de algum tempo sentir-nos-emos livres.

SOBRE OS RELACIONAMENTOS DOS CASAIS

Vou dizer algo sobre o relacionamento dos casais. Só são bem sucedidos se partirem de uma base de igualdade. Logo que um tenha pena do outro e quiser ajudá-lo, comporta-se como se fosse superior e relega o outro para um lugar inferior.

Para o cliente: “É por isso que deve separar-se de si. A sua dignidade pede-lhe que se separe de si. Procure agora algo melhor, um parceiro semelhante”.

SENTIMENTOS DRAMÁTICOS

Gostaria de dizer ainda alguma coisa sobre sentimentos. Ela demonstrou sentimentos dramáticos. Eram os seus próprios sentimentos, não como representante. Um representante nunca demonstra sentimentos dramáticos enquanto estiver em contacto com a pessoa que representa. Portanto, se alguém se deixa invadir por sentimentos dramáticos, será melhor trocá-lo por outra pessoa. Não podemos confiar em sentimentos dramáticos. Podemos reconhecer um sentimento dramático por um sinal. Fecham os olhos. Não olham para a outra pessoa. Quero mencionar isto, para que possam ter alguma orientação de como agir.

Para o representante: “Parece-me bem melhor agora”

EM HONRA DOS SOFRIMENTOS DAS MULHERES CHINESAS

Tenho uma imagem estranha. É estranho que aqui tenhamos estes sentimentos com frequência.. Não é vulgar apanhá-los assim. E tenho a percepção de que isto tem a ver com o sofrimento do povo Chinês, especialmente das mulheres, desde há muitas gerações. Isto acontece com as mulheres aqui. Mas não ajuda. Não ajudam os que sofreram, nem ajuda os que o exprimem.

Para o cliente: “Por favor, chegue aqui”

Coloca-a em frente da audiência.

Hellinger: “Imagine agora que olha para todas as mulheres que sofreram. Olha para elas. Abra os olhos e incline-se com profundo respeito”

Após um momento, ela inclina-se e fica assim durante algum tempo. Depois endireita-se. Depois de algum tempo, inclina-se de novo, fica assim durante um bocado e volta a endireitar-se.

Hellinger: “Peça-lhes – Por favor sorriam para mim”

Cliente: “Por favor sorriam para mim”

Depois de um longo período, ela começa a sorrir. Depois endireita-se e abre os braços.

Hellinger: “Abra os olhos. Olhe para elas, exactamente como está”

Depois de um momento, ela deixa cair os braços e coloca ambas as mãos sobre o peito. Respira profundamente e chora baixinho.

Hellinger: novamente após um momento: “Tudo bem?”

Ela acena com a cabeça e volta ao lugar.

Hellinger, depois de uns instantes, para o grupo: “Vou fazer uma pequena meditação convosco. Fechem os olhos. E, como ela fez, olhem para todos os milhões de pessoas que sofreram e que morreram – e vejam-nos no reino dos mortos, jazendo ali, todos os que sofreram e que foram desprezados. E olhem também para os que os magoaram e que os trataram mal. Também estão mortos. As vítimas estão mortas e os criminosos estão mortos. E no reino dos mortos, olhem uns para os outros, vêem o que sofreram, vêem o que fizeram aos outros.

E quando vêem isto, começam a chorar. Choram apenas. E então todos se levantam e olham para Este, olham para o horizonte onde brilha uma luz branca. E todos se inclinam perante esta luz branca e assim permanecem em profundo respeito, a olhar esta luz branca. Inclinem-se, também, com eles, perante esta luz branca. E agora retirem-se lentamente e deixem-nos continuar inclinados perante a luz branca. E retirem-se cada vez para mais longe, até desaparecerem. Voltem agora para o reino dos vivos e olhem em frente.”

Depois de uns momentos: “Ok. Agora voltem. Aqui acaba a sessão de hoje”.

(Tradução de Manuela Palmeirim)