INTRODUÇÃO ÀS CONSTELAÇÕES FAMILIARES

 

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(Palestra de Bert Hellinger em Outubro 2001 num workshop em Taipei. Netra foi o organizador deste workshop).

Agradeço a Netra que me convidou para vir a Taiwan e que preparou esta noite e este workshop duma forma tão maravilhosa. Esta noite quero fazer uma introdução muito rápida sobre a arte da constelação familiar e falar um pouco sobre o fundo das constelações familiares e sobre as dinâmica das famílias que vêm à luz por meio das constelações familiares.

GRANDIOSIDADE HUMANA

De início, quero comentar sobre a grandiosidade humana. Algum tempo atrás, li vários textos de Kungtse. Quando li estes textos, compreendi algo sobre a grandiosidade humana. O que compreendi dos seus escritos foi: Aquilo que é maior nos seres humanos é o que os faz iguais a todos os outros. Tudo mais que desvie para cima ou para baixo do que é comum a todos os seres humanos faz-nos menos humanos. Se soubermos isto, poderemos desenvolver um profundo respeito para com cada ser humano.

PAIS SÃO GRANDES, FILHOS SÃO PEQUENOS

Naturalmente, os seres humanos são diferentes. Não obstante são iguais. Explicarei isto com um exemplo. Se uma criança nasce, tem estes dois pais particulares. Não pode ter nenhuns outros pais. Pode somente ter estes dois pais. Consequentemente, estes pais são os melhores para esta criança. Não pode haver nenhuns outros pais melhores. São os certos para esta criança.

Algumas pessoas queixam-se sobre os seus pais. Desejavam que eles fossem outros e não aqueles. Deste modo, não podem receber dos seus pais o que eles na realidade lhes dão. Quando nós olhamos para os nossos pais, vemos que por detrás deles estão os seus pais, e que atrás dos seus pais há outros pais, e assim por diante através de muitas gerações. A mesma vida corre através de todos até que nos alcança. De facto, não importa como esta gente era na vida real.

Se eram o que nós chamamos gente boa ou se eram o que chamamos de más pessoas, se se preocupavam com os seus filhos ou pelo contrário, negligenciavam-nos. No que diz respeito à passagem da vida, são todos o mesmo. Não há nenhuma diferença entre eles. A vida pura flui directamente através de todas estas gerações. Nenhuns destes pais poderiam apagar algo desta vida, e não poderiam adicionar-lhe algo. Assim, todas as crianças através de todas estas gerações receberam a mesma vida.

Quando olhamos para os nossos pais e vemos que a vida vem de muito longe, então podemos aceitar a vida como ela corre através de nossos pais sem nenhuma hesitação. Desta forma, os pais são grandes, os filhos são pequenos. Os pais dão, os filhos recebem e aceitam. Se olharmos para os nossos pais desta maneira, podemos honrar os nossos pais, sejam eles como forem. Se fizermos isto, sentimo-nos ricos. O nosso coração abre-se e sentimo-nos fortes. Esta é uma verdade muito simples. Se atentarmos para isto e o aceitarmos, muita coisa poderá mudar na nossa vida.

Através das constelações familiares trouxemos à luz o verdadeiro significado de quando honramos nossos pais desta maneira. Realmente, toda a psicoterapia começa com honrar os pais. E quem é um bom terapeuta? Um bom terapeuta honra os pais dos seus clientes. Nunca permitirá que alguém acuse os seus pais. Porque assim que alguém acusa os seus pais, deixa de estar conectado ao fluxo da vida.

Esta verdade simples é para muitos novidade. Pode verificar que em muitas psicoterapias alguns psicoterapeutas tomam o partido do cliente contra os seus pais. Mas ninguém pode estar em paz consigo mesmo a menos que esteja em paz com ambos os seus pais. Se conhecer pessoas deprimidas, pode sempre verificar que rejeitam um dos seus pais. A depressão é curada se forem conduzidos a reconciliarem-se com os seus pais.

NOS ENREDOS

Falemos agora sobre as constelações familiares. Que quer isto dizer? Acima de tudo, é simplesmente um método. Se um cliente tiver um problema, o terapeuta pergunta-lhe sobre acontecimentos na família. Mas ele não pergunta nada sobre o seu pai, se era bom ou mau, ou como era a sua mãe? Porque a experiência com constelações familiares mostra que isto não é importante. Tal como expliquei anteriormente, não importa como os nossos pais são. Nós começamos a viver através deles.

Outras coisas contam numa família. Por exemplo, se alguém na família não foi tratado como um igual. Verificamos, que em algumas famílias um membro é excluído. Os pais podem talvez começar a sentir-se irritados com um filho, e não querem saber mais nada sobre essa criança. Ou os filhos rejeitam os pais. Então não fazem mais parte da sua família. E às vezes algo acontece na família que causa medo na família. Por exemplo, se uma mulher morrer no parto, muitos na família ficam receosos com o que aconteceu. Por exemplo, por causa disto outras raparigas na família podem ter medo de ter filhos.

Em consequência, tal mulher frequentemente não mais é mencionada na família. Desta forma, é excluída. É negado o seu lugar de igual nessa família. Ou se uma criança morrer no nascimento, é muito frequente não mais ser mencionada. Mas é um membro da família. Às vezes, os pais querem ter um outro filho como um substituto para esta criança. Quando têm o outro filho, nunca mais pensam na primeira criança. Estes são eventos importantes numa família. Ou se houver um suicídio, a pessoa que se matou nunca mais é mencionada. Ou os outros membros da família ficam zangados com esta pessoa. Assim são excluídos.

Em tal família nem todos os membros são considerados como igual em seu direito de pertencer. Alguns comportam-se como se tivessem mais direito de pertencer do que os outros. Assim a igualdade básica não é mantida.

Que acontece então em tal família? Mais tarde, às vezes diversas gerações mais tarde, de repente uma criança comporta-se como a pessoa que tinha sido excluída antes. Ou essa criança conduz a sua vida de forma similar à dessa pessoa que foi excluída. Mas esta criança não sabe nada do que tinha acontecido antes. Isto mostra que os membros da família são parte de algo maior, de uma alma maior que os une, ou de uma consciência colectiva que os move a todos no mesmo sentido. Esta força maior não tolera que qualquer um seja excluído. Quer fazer justiça àqueles que tinham sido excluídos forçando um outro membro a repetir a sua vida. Consequentemente, um membro mais novo da família é identificado com uma pessoa mais velha. A isto chamamos um enredo.

Mas ninguém está ciente disto. É um processo completamente inconsciente. Agora, através das constelações familiares estes enredos são trazidos à luz, e uma solução pode ser encontrada para que as pessoas podem ficar livres de um enredo.

COMO FAZER UMA CONSTELAÇÃO FAMILIAR

Falarei um pouco, rapidamente, sobre constelações familiares. Um cliente selecciona do grupo representantes para os membros da sua família e coloca-nos relativamente uns aos outros. Se os observar, pode muito bem ser surpreendido, de repente, com o que vê. Na primeira imagem algo escondido é logo mostrado geralmente. Por exemplo, podemos ver que alguns dos membros querem deixar a família. E vemos que, quando são dispostos, os representantes sentem-se como as pessoas que representam sem as conhecer. Assim, sabem sobre as pessoas que não conhecem. Isto mostra algo sobre a condição humana. Nós não somos somente nós próprios, estamos conectados com muitos outros de uma maneira muito misteriosa. O que também vem à luz nas constelações familiares é que afinal, todos na família são iguais. Ninguém é melhor, nem ninguém é pior. Assim, no fim, podemos ser muito humildes e tomar o nosso lugar em nossa família, e tomando o nosso lugar certo na família, sentimo-nos bem e livres. Talvez eu deva demonstrar agora uma constelação familiar

COMENTÁRIOS SOBRE ADOPÇÃO

Nas constelações familiares é muito importante que o terapeuta não tenha nenhuma compaixão por aqueles que foram culpados. Se uma mãe vier a um psicoterapeuta, quantos psicoterapeutas teriam piedade dela. Que acontece se tiver piedade da mãe? Como é a sua atitude para com os filhos? Não têm nenhuma piedade pela criança. Consequentemente na terapia da família, todo o terapeuta primeiramente dá um lugar no seu coração à pessoa que sofreu mais. E esta é a criança. Procura uma solução para a criança, e não retira nenhuma responsabilidade daqueles que foram cruéis com a criança. Não que eu condene estes pais. Nós não sabemos as circunstâncias. Mas ainda, eles são os pais e são responsáveis pelos filhos. A verdade é que afastaram e deram a criança para sempre.

Se esta verdade lhe tivesse sido revelada, por exemplo, se a mãe dissesse ao filho, "saiba que eu tive que trabalhar e não podia tratar de você", então comportar-se-ia como uma criança, e a criança teria a obrigação de comportar-se como seu pai, tomando conta dela. A realidade é assim apenas distorcida. Assim, o terapeuta não tem nenhum medo de dizer a verdade tal como ela é, nem de confrontar as pessoas com ela.

Aqui, os pais foram confrontados com a verdade. A criança foi confrontada com a verdade, e os pais adoptivos também. Tiveram que reconhecer que a criança é realmente leal a seus pais naturais. Somente se a criança provier de uma clara separação de seus pais naturais, poderia virar-se para os seus pais adoptivos.

Muitas crianças adoptadas sentem-se zangadas com seus pais naturais porque as afastaram. Mas não viram essa raiva para os seus pais naturais, elas dirigem essa raiva para os pais adoptivos. Assim isto é muito difícil.

Este era um exemplo relativamente simples de uma constelação familiar. Mas mostrou alguns pontos importantes. Agora vou falar em geral sobre a aplicação das constelações familiares.

ANOREXIA

Nas constelações familiares vêem à luz determinadas dinâmicas que causam infelicidade, doenças, acidentes, suicídios, comportamentos criminosos. Antes de mais, você deve saber que uma criança está ligada aos seus pais com um amor muito profundo. A criança não tem nenhum desejo maior do que pertencer aos seus pais. Se uma criança sentir que os seus pais necessitam de algo, está preparada para sacrificar tudo, mesmo a sua vida, por um amor cego. Por exemplo se uma criança sente que a mãe vai morrer, diz, "Eu morrerei em teu lugar." Então a criança começa a ficar doente, talvez, ou sofre um acidente fatal. Ou se uma criança detectar que o seu pai vai deixar a família, diz, "Eu irei em teu lugar". Tal criança desenvolve, talvez, anorexia. A menina anoréxica diz no seu coração, "É melhor ser eu a desaparecer, sou eu quem deve desaparecer, e não tu, meu querido pai."

Há uma teoria difundida em psicoterapia que diz que a anorexia está relacionada com a mãe, sendo que o relacionamento com a mãe está de alguma forma distorcido. Mas as constelações familiares mostram que, geralmente, esta tem que ver com o pai. O pai quer deixar a família, e a menina diz, "Eu faço-o em teu lugar."

Agora, o que fazer com isto? Se tivermos uma constelação familiar, e se o pai puder estar presente, eu deixo a criança enfrentar o seu pai, olhar para ele e dizer-lhe, "Eu sairei em teu lugar." Que acontece ao pai quando ouve isto? Pode ir-se embora agora? Não. Assim, pode dizer ao filho quando isto vier à luz, "Eu ficarei, e tu tens a minha benção se permaneceres vivo." Assim, a anorexia pode ser curada, realmente de uma forma muito simples.

BULIMIA

Temos, por exemplo, um caso de bulimia. Quer dizer que, se uma menina - é geralmente uma menina - comer e vomitar mais tarde. Primeiro comem e depois vomitam. Geralmente a bulimia segue a anorexia. Que quer dizer realmente bulimia neste caso? Quer dizer que, quando ela come, diz, "Eu ficarei viva." E quando vomita, diz, "Eu morrerei." Assim, ela não superou a dificuldade. A solução é: sempre que quiser vomitar, deverá dizer, "Eu viverei." Então pode parar de vomitar.

Também temos bulimia num contexto diferente, a bulimia mais comum, quando não há nenhuma conexão com a anorexia. Qual é a dinâmica familiar em tal caso? Se olharmos de perto para uma família como esta, podemos ver que a mãe diz - não abertamente mas faz saber isso aos filhos - "Não aceitem nada do vosso pai, vocês só devem aceitar coisas vindas de mim."

Dir-lhes-ei como descobri isto. Havia uma menina bulímica que disse que a sua mãe disse aos filhos, "O vosso pai não vos dá nada para comer." Consequentemente, cozinhou secretamente para os filhos e o pai não devia de saber nada sobre isso. A partir disto, encontrei a solução para este tipo de bulimia. Disse à menina bulímica, "Sempre que tiveres vontade de comer, compra todos os alimentos que quiseres comer, coloca-os na mesa, olha para eles, e enquanto agarras num pequeno garfo, imagina que te sentas ao colo do teu pai. Então, come um pouco do que tens no garfo, imagina que olhas para o teu pai e dizes-lhe, "Contigo, os alimentos sabem realmente bem". Só com o pensamento, já se curaram muitas meninas bulímicas. Tudo isto vem à superfície através das constelações familiares.

SUICÍDIO

Em muitas famílias houve um suicídio e as pessoas então dizem, "Esta pessoa matou-se por causa disto ou daquilo." Mas as razões dadas, são geralmente erradas. Quando construímos a constelação familiar, algumas outras coisas vêm a iluminar-se. Dou-vos um exemplo.

Um homem idoso que era médico, disse que o seu filho mais novo se enforcou uma noite. O rapaz tinha 14 anos. Tinha-o mandado ir comprar comida. Quando o rapaz veio para casa, deixou cair a comida no chão. Então o pai zangado, bateu-lhe. Na noite seguinte, o rapaz enforcou-se. Isto tinha acontecido muitos anos antes, e o homem idoso ainda se sentia culpado pela morte do filho. Um mês mais tarde, veio a um outro seminário, e durante o intervalo estivemos juntos, a falar. De repente, recordou, alguns dias antes do filho se enforcar, que a mãe, à mesa, disse à família, que estava grávida. E esse filho gritou em pânico, "Mas nós não temos quartos que cheguem em casa." Foi por Isso que se enforcou. Deu o seu quarto para a outra criança. Quando o homem idoso compreendeu isto, as lágrimas caíram-lhe pela face, e disse-me mais tarde, "Agora estou em profunda paz."

A maioria dos suicídios são cometidos em nome do amor, a fim de seguir alguém na morte. Por exemplo, alguém cuja mãe morreu no parto, tem um desejo profundo de seguir a mãe na morte. Então ficam doentes ou têm um acidente e, às vezes, matam-se. Ou, se virem que na família alguém se quer matar, fazem-no no lugar desta pessoa.

Uma vez eu tive um caso muito estranho num seminário. Uma mulher que era a segunda esposa de seu marido, fez a constelação. Relatou que a primeira esposa de seu marido tinha cometido suicídio. Então eu coloquei um representante do marido na frente da primeira esposa que se tinha suicidado. Quando se encontrou à sua frente, o representante sentiu os joelhos fraquejarem, rastejou na sua direcção e agarrou-se às suas pernas, gritando. Realmente, ele tinha querido suicidar-se, e sua esposa tinha-o feito em seu lugar.

Devo contar-lhes mais alguns exemplos sobre a dinâmica das constelações familiares? Sentem-se ainda bastante fortes? Eu conto mais alguns. Talvez sobre pacientes de cancro. Mas eu penso, no que diz respeito aos pacientes de cancro, que Netra pode relatar um exemplo pessoal.

Netra contou este exemplo somente em chinês. Seu pai estava doente com cancro. Netra fez a sua constelação familiar no hospital, e seu pai entrou na constelação, embora mal podendo permanecer em pé. Após a constelação, sentiu-se muito feliz e ficou a cantar na sua cama. Pouco depois, morreu muito serenamente.

HELLINGER a NETRA Eu tenho a certeza, o seu pai estará presente e abençoará tudo o que você fizer aqui.

Se você ainda tiver forças suficientes, pode fazer algumas perguntas

CANCRO

- Eu gostaria de continuar a ouvir mais sobre o cancro numa constelação familiar.

Com pacientes de cancro, muitas vezes podemos ver que querem morrer. Dizem que querem lutar contra o cancro mas profundamente, bem no íntimo, eles querem morrer. Uma dinâmica muito comum que vi com mulheres, foi que elas estavam em guerra com as mães. Consequentemente, em geral, se eu tivesse que fazer uma constelação com uma mulher que tivesse cancro no peito, eu a colocaria em frente à sua mãe.

Recentemente, nós tivemos uma constelação onde fizemos isso. Mas aqui era diferente. A mulher que tinha cancro ajoelhou-se na frente da sua mãe, e a mãe não a viu. Passou pela sua filha e olhou mais para a frente, olhou para o chão. Numa constelação familiar, se alguém olhar para o chão, quer dizer que está a olhar para uma pessoa morta.

Assim eu seleccionei um representante e deixei-o colocar-se por trás da filha, em frente da mãe. Cerrou os seus punhos. Então eu perguntei à mulher doente: "O que aconteceu na família?" Disse que o irmão da sua mãe tinha morto a sua amante. Da constelação poderíamos concluir que a sua mãe soube disso e certamente o tinha consentido.

Agora o que acontece no íntimo de uma pessoa como aquela? Sente-se culpada, e sabe, dentro do seu coração, ela também ganhou a morte. Mas então, a filha diz no seu coração, "Eu morro no teu lugar." Por isso é que desenvolveu o cancro. Este era o segredo profundo da sua doença.

Mas voltando ao exemplo das mulheres e das suas mães. Muito frequentemente eu faço um exercício muito simples. Digo-lhes que devem ajoelhar-se na frente da sua mãe e curvar-se para o chão em respeito para com elas. Muitas mulheres que têm cancro de peito não conseguem fazer isto. Há uma resistência tão forte para honrar a sua mãe que se torna aparente que mais facilmente morrem do que honram a sua mãe. Naturalmente, você não pode dizer que cada mulher que tem cancro no peito tem dificuldades com a sua mãe. Isto é errado. Mas há muitos casos onde eu vi isso.

Dou-vos um outro exemplo. Uma vez fiz um seminário somente para pacientes de cancro, e trabalhei com uma mulher. Não se concentrou e eu tive de parar a constelação. Em consequência, ficou zangada comigo. Mas muito frequentemente, quando eu paro uma constelação, é uma intervenção terapêutica. No dia seguinte, ela estava completamente mudada. Veio para a frente e disse que tinha algo a relatar.

Tinha-se recordado que, imediatamente depois de ter sido operada ao peito, quando estava justamente a acordar da anestesia, a sua filha veio ter com ela e disse, "Mãe, ouvi duas crianças a chorar lá na nossa casa." Ela tinha trazido duas bonecas e colocou-as no ombro da sua mãe dizendo, "Eu trago-lhe estas duas crianças." A mulher soube imediatamente quem elas eram. Tinha abortado duas crianças. Então nós pudemos fazer a sua constelação. Ela podia olhar estas crianças e dar-lhes um lugar no seu coração. Alguns anos mais tarde, encontrei-me com ela outra vez, por acaso, e disse-me, "Estou a sentir-me muito bem."

Alguma outra pergunta?

AS CONSTELAÇÕES FAMILIARES SÃO BASEADAS NA OBSERVAÇÃO

- Como é que você descobriu ou desenvolveu este método?

Tudo isto é baseado na observação. Não tenho nenhuma teoria sobre ele. Vi milhares de constelações familiares, e troquei minhas observações e descobertas com muitos dos meus colegas que também fazem constelações. Encontrámos algumas leis básicas que actuam nas famílias. Mas você não pode usá-las como uma teoria. Apontam num sentido, mas cada constelação familiar é diferente. Você não pode confiar numa constelação anterior para aplicá-la a uma mais nova. Há algumas similaridades, naturalmente, mas você tem que enfrentá-las novamente de cada vez. Consequentemente, um terapeuta nunca pára de aprender.

CONFIANDO NUMA FORÇA MAIOR

Também tem que desenvolver uma determinada atitude pessoal a fim de fazer este trabalho. Expõe-se a uma situação sem nenhuma intenção especial. Olha a constelação, expõe-se a si próprio à constelação, e não sabe o que fazer. Espera apenas, e não tem nenhum medo do que pode vir à luz. Confia numa força maior. É muito aproximado à atitude que Laotse descreve no Tao te King. Nada fazendo, algo acontecerá. De repente vê a etapa seguinte, ou ouve uma frase que pede que o cliente diga, como eu fiz com você quando você representava a menina aqui. Estas frases não são pensadas anteriormente. Vêm ao de cima da profundidade de repente, e se forem ditas, elas têm força.

Assim, a constelação familiar é também uma arte. Após algum tempo, se você fizer isto ao longo dos anos, pode tornar-se sábio.

Mais uma pergunta.

A EXPERIÊNCIA DE SER UM REPRESENTANTE

- Você não faz os representantes saírem dos seus papéis?

Não faço isso porque têm uma experiência especial quando são representantes. A mulher que representou a menina nunca se poderá sentir como uma criança adoptada. Não pode experimentar isso na sua vida. Mas sendo um representante aqui na constelação pode experimentar. Ganhou algo com isso. O mesmo se aplica à mulher que representou a mãe natural. É uma experiência de vida. Assim, porque os faria sair dos seus papéis? Somente se alguém tem que representar algo muito sofrido, muito duro, eu os ajudo a libertarem-se dessa representação.

Mais alguma pergunta?

INCESTO

- Qual é a dinâmica com o incesto?

Levaria uma hora inteira só para falar sobre isso. Mas o principal sobre o incesto é, se houver um incesto, a criança fica ligada ao perpetrador. Ama o perpetrador. Mas não lhe é permitido mostrá-lo. Assim sendo, permanece ligada ao perpetrador.

Onde há um incesto, geralmente há dois perpetradores. Um visível - este é geralmente o homem, e um que permanece escondido - que é a mãe. Muito frequentemente, a mãe quer afastar-se do seu marido, ela quebra o relacionamento com o seu marido. Então a filha substitui-a. Normalmente, esta é a dinâmica secreta do incesto.

Para Netra: No livro que traduziu, há um bonito exemplo de como tratar este tema.

Ok, isto é o final da noite.

HELLINGER a NETRA: Obrigado pela sua tradução.

(Tradução de Graça Raimundo)