COMO FUNCIONA O AMOR

 

Muita gente supõe que se nós amarmos bastante, o amor triunfará e tudo se transformará em bem. A experiência demonstra que isto não é verdade. Às vezes os pais vêem, desesperadamente, como os seus filhos, embora profundamente amados, tornam-se diferentes do que eles esperavam, por vezes ficando doentes, viciados em drogas ou suicidas. Tais experiências mostram que, para além do amor, é necessário algo mais para que o amor seja bem sucedido. O que o amor requer é que nós compreendamos e sigamos as escondidas Ordens do Amor.

ORDEM E AMOR

O Amor completa-se com o conteúdo das Ordens.
O Amor é água, as Ordens são o seu jarro.

As Ordens são a terra arrendada,
Permitindo que o Amor flua.

Ordem e Amor cooperam:
Tal como a melodia e suas harmonias,
Assim é o Amor com as suas Ordens.

Tal como nossos ouvidos são arranhados pela dissonância,
Mesmo quando explicada,
Também a nossa alma adapta-se com dificuldade
Ao Amor sem ordem.

Alguns tratam as Ordens como se elas
Fossem opiniões que possamos
Ter ou mudar à vontade.

Mas elas são como são.
Trabalham, mesmo quando não as compreendemos.
Nós não as criamos, descobrimo-las.
Concluímos então, como Desígnio e Alma,
Do seu efeito.

Muitas destas ordens estão escondidas e nós não podemos observá-las directamente. Trabalham profundamente na alma, e tendemos a obscurecê-las com as nossas crenças, objecções, desejos ou ansiedades. Necessitamos de entrar profundamente na alma se quisermos tocar as Ordens do Amor.

ACEITAR A VIDA COMO ELA É

Gostaria de começar dizendo algo sobre as Ordens do Amor entre pais e filhos, partindo da perspectiva do filho. Estas observações são tão fundamentais e óbvias que eu hesito completamente em mencioná-las, mas não obstante elas são frequentemente esquecidas.

Quando os pais dão a vida, agem de acordo com o mais profundo da sua humanidade, e dão-se enquanto pais aos seus filhos exactamente como são. Não podem adicionar qualquer coisa ao que são, nem podem deixar qualquer coisa de fora. Pai e mãe, consumando o seu amor um pelo outro, dão aos seus filhos tudo o que são. Assim, a primeira das Ordens do Amor é que os filhos tomam a vida como ela lhes é dada. Uma criança não pode deixar qualquer coisa de fora da vida que lhe é dada, nem o desejo de que ela seja diferente vai mudar alguma coisa.

Uma criança É dos seus pais. O Amor, se for para ter sucesso, requer que um filho aceite os pais tal como são, sem medo e sem imaginar que poderia ter pais diferentes. Afinal de contas, pais diferentes teriam filhos diferentes. Nossos pais são os únicos possíveis para nós. Imaginar que qualquer outra coisa seja possível é uma ilusão.

Aceitar nossos pais tal como são é um movimento muito profundo. Implica o nosso acordo com a vida e o destino, exactamente como nos são apresentados pelos nossos pais; com as limitações que são inerentes a isso. Com as oportunidades que damos a nós próprios. Com o enredo no sofrimento, má sorte e culpa da nossa família, ou sua felicidade e boa sorte, tal como pode acontecer.

Esta afirmação de nossos pais tal como são é um acto religioso. Expressa a nossa prontidão a dar falsas expectativas, que excedem ou caem de acordo com a vida que os nossos pais nos deram realmente. Esta afirmação religiosa estende-se para além dos nossos pais, e assim, ao aceitar os nossos pais, devemos olhar para além deles. Devemos ver para além deles à distância, de onde a própria vida vem, e devemos curvarmo-nos perante o mistério da vida. Quando aceitamos os nossos pais tal como são, reconhecemos o mistério da vida e submetemo-nos a ele.

Você pode testar o efeito desta aceitação na sua alma imaginando-se profundamente curvado perante os seus pais e dizendo lhes, "a vida que vocês me deram veio para mim ao preço total que vos custou, e o preço total foi o que custou. Eu aceito-a com tudo o que vem com ela, com todas as suas limitações e oportunidades." No momento em que estas frases são sinceramente ditas, nós reconhecemos a vida como ela é e nossos pais como são. O coração abre-se. Quem quer que controle esta afirmação sente-se pleno e em paz.

Compare o efeito desta afirmação com o seu oposto, imaginando-se a afastar-se de seus pais, dizendo, "eu quero pais diferentes. Não gosto de como os meus são." Que ilusão, como se fosse possível sermos nós próprios e ter pais diferentes. Aqueles que falam em segredo estas frases afastam-se da vida como ela é, e sentem-se vazios, sem apoio, e não encontram paz com eles próprios.

Algumas pessoas temem que se aceitarem os seus pais tal como são, devem também aceitar o lado mau deles, e agem como se pudessem escolher somente a parte da vida que preferem. Temendo aceitar a totalidade da vida, também se perde o que é bom. Aceitando os nossos pais como são, aceitamos também a plenitude da vida, tal como ela é.

UNICIDADE

Há, entretanto, um outro mistério envolvido. Nomeadamente, aquilo que nós experimentamos é único, que cada um de nós tem algo pessoal que não pode ser duplicado e que é diferente do que têm os nossos pais. E isto também deve ser afirmado, seja fácil ou difícil, bom ou mau. Se olharmos claramente para o mundo e para as nossas próprias vidas, vemos então que tudo o que é e que tudo o que fazemos, pertence a um todo maior.

O que quer que façamos ou que recusemos fazer, para o que trabalhamos e ao que nos opomos, fazemos porque nós servimos a um todo maior ao qual não compreendemos. Se nos tornarmos íntimos deste todo maior, então experimentamos este serviço como uma tarefa ou uma chamada que não adiciona nada às nossas realizações pessoais se for bom, nem à nossa culpa pessoal se for terrível. Simplesmente somos chamados para servir. Quando olhamos para o mundo desta maneira, as distinções habituais tornam-se irrelevantes. Eu chamo a isto, O Mesmo.

O MESMO

A brisa move-se suave e sussurrante,
a tempestade explode e ruge.
Ainda é o mesmo vento,
a mesma canção.

A mesma água
Banha-nos e afoga-nos,
Carrega-nos e enterra-nos.

O que quer que esteja vivo, usam-se,
preservam-se e destroem-se,
uns aos outros,
dirigidos pela mesma força.

Isto é que interessa.
Quem é servido pelas diferenças?

Estas são então as condições de vida fundamentais. É uma dádiva termos pais e sermos crianças. E também, que temos algo unicamente pessoal.

ANALISANDO O QUE OS PAIS DÃO ADICIONALMENTE

Além de nos darem a vida, os nossos pais dão-nos também outras coisas. Alimentam-nos, animam-nos, cuidam de nós, e muito mais. Isto funciona bem quando a criança aceita o que lhe é dado, tal como lhe é dado. Regra geral, as crianças só aceitam o que necessitam, do que lhes é oferecido. Naturalmente há as excepções que nós todos compreendemos, mas regra geral, o que os pais dão aos seus filhos é o suficiente. Os filhos não podem ter tudo o que querem e nem todos os sonhos são realizados, mas normalmente, os filhos recebem bastante.

É consistente com as ordens do amor quando os filhos dizem aos seus pais, "vocês deram-me bastante, e é suficiente. Eu aceito isso de vós com apreciação e amor." Um filho que sinta isso, sente-se cheio e próspero, não importa o que pode ter ido antes. Tal filho poderia adicionar, "eu cuidarei do resto." Esta também é uma bonita experiência. E o filho poderia adicionar, "agora deixo-os em paz." O efeito destas frases é muito profundo. Os filhos têm os seus pais, e os pais têm os seus filhos. São simultaneamente separados e tornam-se independentes. Os pais terminaram o seu trabalho, e os filhos são livres para viver as suas vidas com respeito para com seus pais, sem serem dependentes deles.

Mas sinta o que se passa na alma quando você imagina os filhos a dizerem aos seus pais, "o que vocês me deram, primeiro, não foi a coisa certa, e segundo, não foi o suficiente. Vocês ainda me devem." O que é que os filhos recebem dos seus pais quando sentem desta maneira? Nada. E o que é que os pais recebem dos seus filhos? Também nada. Tais filhos não podem separar-se dos seus pais. Suas acusações e pedidos amarram-nos aos seus pais de modo que, embora estejam limitados a eles, não têm nenhum progenitor. Sentem-se então vazios, necessitados e fracos.

Esta é a segunda Ordem do Amor, que os filhos tomem o que os seus pais lhes dão para além da vida como ela é.

MEDIDA DO FILHO

Adicionalmente à vida que os pais dão aos seus filhos, e ao que quer que seja que lhes dão enquanto os criam, há também os presentes que os pais dão, do que acumularam com os seus próprios esforços. Por exemplo, uma mãe é uma prendada pintora que pinta os quadros mais maravilhosos. Isto pertence a ela e não aos seus filhos. Se os seus filhos ficarem decepcionados porque não conseguem pintar quadros tão belos - embora não tenham o seu talento e não trabalhassem tão arduamente como ela - eles violam as Ordens do Amor. Não é assim que a vida funciona. O mesmo aplica-se à riqueza material. Os filhos que se sentem herdeiros da riqueza dos seus pais, e ficam decepcionados quando não o são, danificam o amor. Se herdarem a riqueza, então o amor estará bem servido quando a tratam puramente como uma dádiva.

Isto é importante porque se aplica também à culpa pessoal dos nossos pais. A culpa pessoal dos nossos pais pertence-lhes a eles, sozinhos. Acontece frequentemente que os filhos, sem o amor de seus pais, tomam a culpa deles e tentam carregá-la. Mas isto viola as Ordens do Amor. Tais filhos tentam presunçosamente fazer algo que não têm direito nenhum de fazer. Por exemplo, quando os filhos tentam expiar os erros dos pais, colocam-se acima de seus pais e tratam-nos como se os pais fossem crianças de que necessitam de tomar conta, e como se os filhos fossem os pais.

Não há muito tempo havia uma mulher num grupo cujo pai era cego e a mãe surda. Eles compensavam-se um ao outro muito bem. Mas a mulher sentiu que necessitava de cuidar dos pais, e quando nós construímos a sua constelação familiar, o seu representante agiu como se fosse grande e seus pais pequenos. Na constelação, a mãe disse-lhe que, "até que o teu pai queira, eu posso cuidar dele sozinha." E o pai disse-lhe que, "a tua mãe e eu estamos bem sozinhos. Não necessitamos de ti." Mas a mulher ficou mais decepcionada do que aliviada. Foi reduzida ao tamanho de filha, de criança.

Não conseguia dormir nessa noite. De facto, sofria de insónias. No dia seguinte, perguntou-me se eu a poderia ajudar. Eu disse, "as pessoas que não conseguem dormir às vezes acreditam que necessitam de vigiar algo." Então eu contei-lhe uma história de Borchert sobre um menino em Berlim após a guerra. Ele vigiava dia e noite o corpo morto do irmão para que os ratos não o comessem. Embora estivesse completamente esgotado, estava convencido que era obrigado a manter-se de vigia. Um homem caridoso veio ter com ele e disse-lhe, "de noite os ratos dormem." Então o menino caiu adormecido. Nessa noite, a mulher também dormiu.

A terceira Ordem do Amor entre pais e filhos é que respeitamos o que pertence aos nossos pais pessoalmente, e permitimos que façam o que somente eles, podem e devem fazer.

TOMANDO E DESAFIANDO

A quarta Ordem do Amor entre pais e filhos é que os pais são grandes e os filhos são pequenos. É apropriado que os filhos aceitem e os pais dêem. Porque os filhos recebem tanto, têm necessidade de balançar a conta. Faz-nos sentir incómodos quando aceitamos daqueles que amamos sem poder retribuir. Com os nossos pais nunca podemos corrigir o desequilíbrio porque eles dão sempre mais do que nós podemos retribuir.

Alguns filhos fogem da pressão da reciprocidade, da sensação de obrigação ou de culpa. Então dizem, "eu prefiro não receber nada e sentir-me livre da culpa e obrigação." Tais filhos fecham-se aos seus pais e sentem-se vazios e empobrecidos. O amor seria melhor servido se eles dissessem, "aceito tudo o que me derem com amor." Então poderiam olhar amorosamente para os seus pais, e os pais poderiam ver como os seus filhos eram felizes. Esta é uma maneira de aceitar, que consegue equilibrar, porque os pais sentem reconhecimento por este tipo de aceitação, com amor. E dão ainda de maior boa vontade.

Quando os filhos exigem, "vocês devem dar-me mais", então os corações dos pais fecham-se. Porque os filhos exigem, os pais não podem mais inundá-los voluntariamente de amor. É tudo o que essas exigências conseguem, elas proíbem o fluxo natural do amor. E os filhos exigindo, mesmo quando conseguem algo, não lhe dão valor.

RECIPROCIDADE

Entre pais e filhos, a reciprocidade em dar e receber é conseguida dando uns aos outros o que recebemos. Isto faz os pais muito felizes quando os filhos dizem, "eu recebo tudo o que me dás, e quando for grande, passá-lo-ei para os meus filhos." Os filhos não olham para trás quando dão desta maneira, eles olham em frente. Foi o que os seus pais fizeram, eles receberam dos próprios pais e deram aos seus filhos. Porque receberam tanto, sentem-se pressionados para dar abundantemente, e podem fazer isso.

É isto o que eu quero dizer sobre as Ordens do Amor entre pais e filhos.

A FAMÍLIA PRÓXIMA

Nós pertencemos não somente aos nossos pais, mas também à nossa família próxima, a um sistema maior. O nosso sistema familiar comporta-se como se fosse controlado por uma função mais elevada de que todos os membros compartilham em comum. Podemos comparar isto a um bando de pássaros. De repente todos os pássaros voam num novo sentido, como se os pássaros individuais fossem movidos em comum pela decisão do bando. Num sistema familiar, esta elevada função de grupo age como uma consciência de família compartilhada. Esta consciência comum é primariamente inconsciente, e nós podemos reconhecer as ordens que serve, pelo que acontece quando nós lhe obedecemos ou violamos as suas exigências.

Podemos dizer quem pertence ao sistema familiar observando quem é afectado por esta consciência comum, e quem não é. Regra geral, as seguintes pessoas pertencem a um sistema familiar:

O DIREITO DE SOCIEDADE

Um princípio fundamental aplica-se a um sistema familiar que determina que todos os membros têm um direito igual de lhe pertencer. Em muitas famílias e clãs, determinados membros foram excluídos, um tio por exemplo, que era a ovelha negra da família, ou um filho ilegítimo sobre quem ninguém falava.

Ou alguns membros podem dizer, "eu sou Católico e tu és Protestante, e como Católico tenho um direito maior de pertencer do que tu." Ou o reverso, "como um Protestante, eu tenho um direito maior de pertencer, porque eu pertenço à fé verdadeira. Tu és menos fiel do que eu, então tu tens menos direito de pertencer." A religião não é tão importante como era hábito, mas outras coisas são ainda, como a profissão, nacionalidade, cor da pele, género.

Ou, às vezes quando um filho morre em criança, os pais dão ao filho seguinte o mesmo nome. Dizem efectivamente à criança falecida, "você já não pertence. Nós temos um substituto para ti." A criança falecida não pode mesmo manter o seu próprio nome. Em muitas famílias tais crianças nem são contadas entre os filhos, nem são mencionadas. O seu direito fundamental de pertencer é ferido e negado.

Muitos chamam moralidade, especialmente quando alguns membros acreditam que são melhores do que os outros e colocam-se acima deles, é realmente a mensagem, "nós temos mais direito de pertencer do que tu." Ou quando falamos mal de outros membros e os tratamos como se fossem maus, nós estamos a dizer, "tu tens menos direito de pertencer do que eu." Em tais situações, "bom" somente quer dizer que eu tenho mais direito de pertencer e "mau" significa que tu tens menos direito de pertencer.

OS MEMBROS EXCLUÍDOS SÃO REPRESENTADOS

A dinâmica fundamental num sistema familiar é que todos os membros têm um direito igual de pertencer e não é tolerado ferir. Sempre que alguém num sistema familiar é excluído, gera-se uma necessidade de compensação. Esta dinâmica de compensação leva a que o membro excluído ou desdenhado seja representado por um membro mais novo da família, que está inconsciente de, e sem poder fazer nada contra essa identificação.

Por exemplo, um homem casado apaixona-se por outra mulher e diz à sua esposa que não quer ter mais nada com ela. Inventa razões superficiais e caprichosas para justificar as suas acções, compondo a injustiça feita à sua esposa. Mais tarde teve filhos com a sua nova companheira, mas a sua filha enfrenta-o por nenhuma razão aparente. Verifica-se que a filha representa inconscientemente a sua primeira esposa e sente pelo pai o mesmo ódio que a sua primeira esposa deve ter sentido, mesmo não sabendo da existência da primeira mulher. Nisto, podemos ver o trabalho de uma invisível e sistemática força compensatória, vingando a injustiça feita ao anterior membro através da utilização inconsciente de um membro mais novo.

Muito sérias disfunções em distúrbios no comportamento familiar nas crianças, mas também as doenças, tendência a acidentes e comportamentos suicidas ocorrem quando as crianças representam inconscientemente uma pessoa excluída para satisfazer a necessidade de restituição dessa pessoa. Isto mostra uma segunda característica da consciência do sistema familiar. Assegura justiça para os membros mais antigos e causa injustiça para os mais novos.

SOLUÇÃO

Os membros mais novos da família podem ser libertados de tais enredos quando a ordem fundamental é restabelecida; quando os membros excluídos são novamente aceites na família e recebem o devido respeito. Por exemplo, a segunda esposa pode dizer à primeira, "eu tenho este homem e tu pagaste o preço; respeito a tua perda e reconheço que te foi feita uma injustiça; peço-te que, por favor, sejas amigável para mim e para os meus filhos." Quando são sinceramente ditas, tais frases nomeiam honestamente o que aconteceu e prestam à primeira esposa o devido respeito. Nas constelações familiares observamos frequentemente como a face da primeira esposa amacia e como se torna amigável porque é respeitada. A sua reacção demonstra que também pertence à família.

A solução requer também que a criança que representa a primeira esposa lhe diga, "eu pertenço somente ao meu pai e à minha mãe. O que quer que esteja entre vocês não é nada comigo." Pode também dizer ao seu pai, "você é o meu pai e eu sou a sua filha. Olhe por favor para mim, como sua filha." Estas frases, ditas com sinceridade, também restauram a ordem fundamental. O pai pode olhar para a sua filha e não necessita de ver nela a sua primeira esposa, e não necessita encontrar nela o ódio e a dor que a sua primeira esposa deve ter sentido. E se amar ainda a sua primeira esposa, não necessita ver a sua amada, na filha. Pode olhá-la, e ver, e amar a sua filha. A filha é libertada para ser meramente uma filha, e o pai, um pai.

A filha pode também dizer-lhe, "esta é a minha mãe; eu não estou relacionada com a tua primeira esposa; eu reclamo e quero a minha mãe; é única para mim". E pode dizer à sua mãe, "eu não estou relacionada com a outra mulher; eu não estou conectada com ela de forma alguma." Tal como a representante da primeira esposa, a mãe pode inconscientemente ver a outra mulher nela, e começar um conflito uma com a outra como se fossem rivais. Quando a filha diz, "você é minha mãe e eu sou sua filha; eu não tenho nenhuma ligação com a outra mulher; eu quero-te como minha mãe. Por favor, aceita-me como tua filha", ela restaura a ordem básica.

Ofensas ao direito igual de pertencer são também a causa de enredos muito mais sérios. Por exemplo, quando uma criança morre jovem numa família, as outras crianças tendem a sentirem-se culpadas porque estão ainda vivas quando o seu irmão ou irmã estão mortos. É como se acreditassem que estão em vantagem porque estão vivos e o seu parente está em desvantagem porque está morto. Inconscientemente tentam compensar procurando falhar, ficando doentes, ou em casos extremos, querendo morrer, embora não saibam porquê.

Em situações como esta, algumas crianças puderam restaurar a ordem do amor dizendo ao seu parente falecido, "você é meu irmão (ou irmã). Eu respeito-o como meu irmão (irmã). Você tem um lugar no meu coração. Eu curvo minha a cabeça perante ti e o teu destino, qualquer que seja, e aceito o meu destino conforme ele vier." Estas frases prestam respeito ao parente falecido, e a criança viva pode voltar à sua vida, sem culpa.

SISTEMAS MÁGICOS DE OPINIÃO E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Para além da necessidade de reciprocidade que causa a doença, um sistema mágico de opinião trabalha o seu infortúnio. Nomeadamente, nós podemos libertar aqueles que amamos do seu sofrimento e infortúnio quando aceitamos carregar com eles. Por exemplo, a alma do filho diz frequentemente à sua mãe doente terminal, "eu prefiro ficar doente, do que vê-la a sofrer. Prefiro eu morrer do que vê-la morrer." Ou quando uma mãe está a ser afastada da vida por forças sistémicas, acontece às vezes que um filho comete o suicídio na opinião mágica de que o seu sacrifício proporcionará a liberdade suficiente para a mãe ficar.

A anorexia tem frequentemente esta dinâmica. Uma criança anoréxica definha lentamente, até que morre. É frequente o caso das almas de tais crianças anoréxicas, que estejam a dizer ao seu pai ou à sua mãe, "é melhor eu desaparecer do que tu partires." Isto é um amor profundo, inocente, mas quando a criança morre, o que é que realiza ela?

Quando eu trabalho com uma criança anoréxica, eu deixo-a falar em voz alta estas frases da alma. Podem olhar os representantes da mãe ou do pai nos olhos e dizer-lhes, "prefiro desaparecer do que deixar-te partir." Quando uma criança olha a sua mãe ou o seu pai até que os veja realmente, não consegue dizer as frases, porque vê que os seus pais ficarão devastados com a sua morte. O sistema mágico da opinião da criança ignora totalmente o facto de que os pais também amam, e que rejeitariam veementemente tal sacrifício. E ignora também o facto de que tal sacrifício seria inútil.

Quando uma mãe morre no parto, o seu filho passa um tempo difícil para abraçar inteiramente a vida. Ajuda quando tal criança olha para a sua mãe nos olhos e diz "mãe, eu vejo o preço terrível que pagás-te para que eu pudesse viver; aceito a vida que me des-te, e farei algo de bom com ela; descansa em paz, sabendo que eu viverei de modo que o teu sacrifício não tenha sido em vão." Aceitar a vida desta maneira é amor num nível mais elevado do que o amor cego que tem a criança-alma que diz, "mãe, eu não posso viver totalmente porque tu morreste; sinto-me demasiado culpado." O amor num nível mais elevado exige que nós abandonemos a opinião mágica que podemos mudar o curso das vidas dos nossos pais para melhor quando nos sacrificamos. Exige que nós transformemos o amor cego que cria e perpetua o sofrimento, num amor que cura.

Os sistemas mágicos de opinião e o amor-criança que segue com eles são aliados a um sentimento presunçoso de poder e superioridade. Um filho acredita realmente que as suas doenças e morte podem libertar o pai ou a mãe da doença e da morte. A verdadeira humildade é o que torna possível diminuir essa presunção.

HOMENS E MULHERES

Gostaria agora de me voltar para as Ordens do Amor nos relacionamentos entre homens e mulheres. Este é um tema que está muito perto de nós. Muita gente fica envergonhada, como se isto fosse algo que devesse ser mantido secreto. O que faz os homens e as mulheres diferentes, realmente diferentes, frequentemente é cuidadosamente escondido. Ou, poderíamos dizer que é protegido. É um ponto onde somos mais facilmente feridos. É o ponto da vergonha; a vergonha que protege um tesouro da profanação. É também o ponto onde nos sentimos mais vulneráveis.

Às vezes as pessoas falam disparatadamente sobre "o movimento sexual humano" e esquecem-se de que esta é a força fundamental, a força mais profunda, que guia a vida e as garantias da sua continuação. É uma força que nos alista no seu serviço quer nós tenhamos escolhido isso ou não. Se a decisão de casar-se e ter filhos fosse realmente uma decisão racional, ninguém o faria. As pessoas fazem assim por causa do poder da força criativa da natureza que se expressa na nossa sexualidade. Através desta movimentação, nós estamos em profundo acordo com a alma do mundo. A movimentação sexual é a razão maior. Todos os outros motivos e considerações racionais empalidecem em comparação à força oculta deste movimento.

A primeira regra das Ordens do Amor entre homens e mulheres é que o homem admite que lhe falta e necessita do que a mulher é, e que não importa o quão duramente tente, não consegue o que a mulher já tem. E o amor requer que a mulher admita que lhe falta e necessita o que o homem é, e que não importa o quão duramente tente, não consegue o que o homem já tem. Isso significa que ambos se sentem incompletos, e que reconhecem isso.

Quando um homem admite que necessita de uma mulher, e que se transforma num homem através dela, e quando a mulher admite que necessita de um homem e que se transforma numa mulher através dele, então a sua necessidade mútua liga-os profundamente, um ao outro. Precisamente porque reconhecem a necessidade de um pelo outro. E esta ligação entre o homem e a mulher permite que o homem receba o feminino da sua parceira como um presente, e que a mulher receba o masculino de seu parceiro como o seu presente para ela.

Em alguns círculos, os homens são incentivados a desenvolver o feminino neles próprios e as mulheres o masculino, acreditando que isto é bom para eles. Mas imagine a ligação entre um homem que desenvolveu o feminino nele próprio com uma mulher que também tenha desenvolvido o masculino nela mesma. Porque não necessitam um do outro, como pode o seu relacionamento se tornar profundo? Mas se ambos resistirem à tentação de desenvolver o género oposto neles próprios, então a sua necessidade de um pelo outro uni-lo-ás outra vez.

LIGAÇÕES ENTRE HOMENS E MULHERES

Quando um homem e uma mulher se aceitam um ao outro no sentido lato de homem e de mulher, então a consumação do seu amor cria uma ligação entre eles que não pode ser dissolvida. Esta ligação é muito diferente dos ensinamentos morais de várias igrejas sobre a indissolubilidade da união. A consumação do amor neste sentido cria uma ligação independente do casamento e de quaisquer rituais ou cerimónias.

Reconhecemos a existência desta ligação pelos seus efeitos. Por exemplo, se alguém frivolamente abandona um parceiro com quem se tenha ligado desta forma, a seguir, tem dificuldade em manter algum outro novo parceiro. O novo parceiro detecta a ligação e não se sente livre para reclamar ao novo parceiro, nem para se tornar completamente aberto e vulnerável. Por exemplo, uma mulher sentiu secretamente que era melhor do que a primeira esposa do seu novo marido, e convenceu-se de que o poderia fazer muito mais feliz do que a primeira esposa tinha feito. Não obstante, após alguns anos, tornou-se incapaz de ter intimidadas com ele. Desta forma, inconscientemente reconheceu a sua ligação à primeira esposa, e também a sua própria lealdade ao primeiro parceiro. Perdeu também o marido, como a primeira esposa tinha perdido.

Em constelações familiares, observamos frequentemente que uma segunda esposa mantém uma pequena distância de seu marido, como se não pudesse tê-lo inteiramente porque ele já estava ligado a outra pessoa.

Também podemos reconhecer a profundidade da ligação pelo seu efeito. Regra geral, o fim do primeiro amor é o mais difícil, é o mais doloroso. A separação é geralmente mais fácil com a segunda ligação, e ainda mais fácil com a terceira.

Esta ligação não é o mesmo que amor. Às vezes acontece que a ligação é muito profunda, mesmo que haja pouco amor, ou que há um grande amor e uma pequena ligação. A ligação é criada pelo acto físico do sexo. Por esta razão, ocorre muito frequentemente através do incesto e da violação. Se uma vítima de violação ou de incesto espera mais tarde ligar-se profundamente, ele ou ela devem tratar da primeira ligação de uma forma boa. O efeito negativo da primeira ligação suaviza-se quando é reconhecido, e o primeiro parceiro, embora talvez um violador, tenha recebido o devido respeito. Quando a primeira ligação é odiada e tratada como algo vil, choca-se com a habilidade de a pessoa ligar-se outra vez mais tarde, em melhores circunstâncias.

HIERARQUIA

O fruto do amor entre um homem e uma mulher são os seus filhos. Há também uma ordem escondida que suporta o amor entre filhos, a sua ordem na hierarquia familiar. A hierarquia familiar segue o fluxo do tempo, isto é, aqueles que estavam lá primeiro vieram antes daqueles que vêm mais tarde. Numa família, os pais já lá estavam antes dos filhos. O seu amor de um pelo outro enquanto homem e mulher, fundaram a família, e vem antes do seu amor para com os seus filhos, como pais. Em algumas famílias, as crianças atraem a total atenção de ambos os pais. Em tais famílias, os pais já não são principalmente um casal, mas sim fundamentalmente pais, e os seus filhos geralmente sofrem com isso.

Quando o amor dos pais um pelo outro, como homem e mulher, mantém a sua prioridade, os filhos geralmente sentem-se muito confortáveis e satisfeitos. Em famílias assim, o pai está implicitamente a comunicar aos seus filhos, "eu vejo-te como és, mas também vejo a tua mãe em ti; e em ti, eu amo-a e respeito-a mais do que sempre." E a mãe comunica aos filhos, "eu vejo-te como és; mas ver-te lembra-me o quanto eu amo e respeito o teu pai, porque eu vejo-o em ti também." E os pais comunicam um ao outro, "quando vejo os nossos filhos, amo-te e respeito-te ainda mais." Então o amor dos pais para com os seus filhos é uma continuação do seu amor como um casal, mas o amor de um para o outro dos pais mantém a sua precedência, e os filhos sentem-se livres.

Muitas famílias hoje são segundas ou terceiras famílias. Por exemplo, quando o homem e a mulher tiveram relacionamentos anteriores e trazem filhos para o novo relacionamento. Qual é a ordem de prioridade então?

Os pais foram pais dos seus filhos antes de formarem um casal. O amor para com os seus filhos não foi uma continuação do seu amor um pelo outro, como homem e mulher, porque eram pais antes de serem um casal. Nestas situações, os novos parceiros devem reconhecer que o amor aos filhos veio antes do amor pelo novo parceiro e que o grande amor e a maior dedicação tendem a fluir para os filhos - e naturalmente nas crianças, para o anterior parceiro também. Somente então, na extremidade da corrente, flui o amor e dedicação para o novo parceiro. Se ambos os parceiros aceitarem esta hierarquia do amor, então o seu amor pode florescer.

Mas quando um dos parceiros do novo casal diz ao outro, "eu quero vir em primeiro lugar, antes de seus filhos", então o novo amor fica em perigo e não resistirá por muito tempo.

Quando um casal traz filhos para o seu novo relacionamento e tem depois filhos juntos, a sequência é que primeiro eram pais dos filhos originais, depois um casal, então pais dos seus próprios filhos. Os casais que respeitam esta sequência natural de tempo e a sua relevância para os seus relacionamentos podem evitar e resolver o grande desafio dos conflitos nas parcerias.

Assim, eu esbocei momentaneamente algumas das ordens mais importantes do amor que nós observámos operando nos relacionamentos entre homens e mulheres. De passagem, pode ser útil dizer que há também ordens do amor para casais sem filhos, incluindo casais homossexuais.

Concluindo, quero contar-lhes uma história sobre o amor. Chama-se Duas Boas Sortes.

DUAS BOAS SORTES

Há muito, muito tempo, quando os deuses pareciam ainda estar perto de nós, dois cantores chamados Orpheus viveram numa pequena cidade.

Um deles era o Grande Orpheus. Inventou a Cítara, um tipo de guitarra, e quando dedilhou as cordas e cantou, toda a natureza ao seu redor ficou fascinada. Os animais selvagens deitavam-se aos seus pés, as árvores mais altas dobravam-se para baixo para o ouvir. Nada podia resistir ao poder da sua música. E porque era tão grande, cortejou a mais bonita de todas as mulheres. Foi quando o seu problema começou.

A bela Eurydike morreu durante as festividades do casamento, e a taça de Orpheus, elevada bem alto, partiu-se na sua mão. Mas para o Grande Orpheus, a morte não era o fim. Com a ajuda da sua grande arte, encontrou a entrada para o sub-mundo e desceu ao reino das sombras, cruzando o rio do esquecimento, passou os cães do inferno, e aparece vivo em frente ao trono do Deus da Morte, e comoveu-o com uma canção.

A morte libertou Eurydike, mas com uma corda amarrada. Orpheus ficou tão feliz que não viu malícia nesta oferta.

Voltou para trás e atrás dele podia ouvir os passos da sua amada. Passaram com segurança os cães do inferno, cruzaram o rio do esquecimento e começaram a subir para a luz que podiam ver à distância. De repente, Orpheus ouviu gritar - Eurydike tinha tropeçado. Em pânico, voltou-se e viu as sombras da noite cair, e estava sozinho. Junto com a sua dor, cantou a sua canção de despedida, "Agora perdia-a. A minha felicidade partiu para sempre."

Conseguiu regressar para o mundo da luz, mas as suas experiências no reino da morte fizeram a vida parecer estranha. Quando as mulheres embriagadas o convidaram para ir com elas ao festival do vinho novo, ele recusou; elas então rasgaram-no vivo, membro a membro.

Tão grande a sua infelicidade, assim tão inútil a sua arte. Mas, é conhecido em todo o mundo.

O outro Orpheus era um homem menor. Não era um grande músico. Cantou em pequenas festas para gente simples. Não era muito bem sucedido, mas fê-los felizes e divertiu-se muito. Não podia viver das suas cantigas, e assim arranjou um emprego que não era nada de especial, casou com uma mulher que não era muito especial e teve filhos que tão pouco eram muito especiais. Cometeu pequenos pecados, normais, de tempos a tempos, e foi tão feliz como todos os outros. Teve uma vida muito normal e morreu de velho e satisfeito com a vida.

Mas, ninguém o conhece - excepto eu.

(Tradução de Graça Raimundo)